Uma história contada e escrita através de caminhos antigos

de Vitor Chimento

Interessante descrever e transcrever os percursos das antigas estradas de penetração do território fluminense, pela importância que estas tiveram como vetores do povoamento e desenvolvimento da Região do Vale do Paraíba no Estado do Rio de Janeiro.

Nossa história de colonização teve parte dela escrita ao longo e através desses caminhos que abrangem desde a expulsão de índios nativos de suas terras, ao transporte do ouro ao estabelecimento da cultura do café, ao surgimento e enriquecimento das famílias dos “barões do café” e as modificações socioeconômicas e culturais por que passou esta região.

Por esses caminhos passaram tropeiros e tantos viajantes estrangeiros, comerciantes, naturalistas, escritores e aventureiros, todos impulsionados pelos mais diferentes motivos.

Muitos desses vestígios de tempos passados estão registrados em relatos, desenhos e aquarelas que retratam paisagens por onde passaram os viajantes, tais como: as primeiras roças para a provisão de mantimentos; as estalagens; os armazéns que abasteciam as tropas de mulas dos carregadores de ouro; os postos de registros que controlavam o tráfego das riquezas minerais extraídas do interior do país; os engenhos de açúcar com seus destiladores e moendas; as primeiras fazendas que se ocuparam das plantações de milho, mandioca, arroz, feijão e da criação de suínos; os portos fluviais de cidades que desapareceram; os povoados e núcleos que estacionaram no tempo.

Algumas das primeiras fazendas tornaram-se grandes produtoras de café.

Caminhos de terra

Esses vestígios também podem ser percebidos nas paisagens remanescentes das matas nativas que circundam e acompanham os leitos desses caminhos, nos calçamentos de pedra que permanecem, ainda, revestindo trechos dessas estradas, nas monumentais ou singelas ruínas e edificações que sobreviveram ao tempo e que, por vezes, se adequaram aos tempos atuais ganhando novos usos e funções.
A história do Vale do Paraíba Fluminense foi sendo escrita aos poucos, a partir do alcance e desses caminhos de terra, aliados à riqueza de sua rede pluvial, alimentada pelo Rio Paraíba do Sul, e de suas florestas circundantes, com seus solos férteis que se somaram a outros fatores econômicos, políticos e sociais, contribuindo para transformar a região, num passado não muito remoto (século XIX), num dos maiores polos produtores de café do país. Tamanha grandeza se faz presente na imponência da arquitetura das casas-sede das fazendas e das edificações, verdadeiros documentos vivos de nossa história.
Os primeiros caminhos do Vale do Paraíba do Sul surgiram no século XVII, quando a Coroa Portuguesa, com o objetivo de encontrar ouro e pedras preciosas no interior da colônia, começou a buscar pontos distantes. Assim que o ouro foi descoberto, deu-se início a construção de uma verdadeira rede de estradas ao longo dos séculos seguintes. Os velhos caminhos de terra sinuosos e estreitos, com o declínio do Ciclo do Ouro, foram sendo calçados e ampliados para a passagem de tropas que transportavam o ‘ouro verde’: café.
O Caminho Velho ligava Angra dos Reis, Paraty e Ubatuba. Parte deste Caminho existe no trecho que Liga Paraty e Guaratinguetá. Já o Caminho Novo apresentava duas principais variantes: Caminho Novo do Tinguá (ou de Garcia Marques) e o Caminho de Inhomirim (ou do Proença). Vários outros caminhos e estradas foram abertos a partir do Caminho Novo, tais como Caminho para São Paulo, Estrada Real das Boiadas, Mambucaba, Estrada de São João Marcos, Estrada do Comércio, Estrada da Polícia, Estrada Presidente Pedreira, Estrada dos Fazendeiros e Estrada União Indústria inaugurada em 1861, idealizada e executada pelo empreendedor Mariano Procópio Ferreira Lages, que deu inicio a história das estradas pavimentadas no país.

Vitor Chimento, biólogo e jornalista
MTb 38582RJ
vitor.chimento@diariodorio.com.br

pt Português
X
EDITORIAS