RJ: a polícia que mais mata em confronto também se mata

Military policemen reinforce security in front of federal court before the session where Brazil's electoral court will take up 2014 case that could unseat President Michel Temer, in Brasilia, Brazil June 6, 2017. REUTERS/Ueslei Marcelino

A polícia do estado do Rio de Janeiro – militar e civil – é a mais letal do Brasil em confronto. Ela foi responsável em 2018 pelas mortes de 1.534 pessoas – 9 a cada 100 mil habitantes, uma taxa três vezes e meia maior que nos demais estados do país. No entanto, o recorde do ano passado pode ser batido em 2019: de janeiro a agosto, policiais do Rio de Janeiro mataram em confronto também 1.249 pessoas – o dobro de mortes cometidas pela polícia dos Estados Unidos nesse mesmo período. Tamanha letalidade policial fez com que o Ministério Público do Rio (MP-RJ) abrisse recentemente um inquérito civil para apurar o aumento desses números.

Mas há outro lado dessa brutal violência do aparato de segurança: suicídios! Segundo a 13ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em setembro, cerca de 104 policiais cometeram suicídio em 2018, um aumento de 42% se comparado com o ano de 2017. Desses 104 policiais, três eram do Rio de Janeiro. Em dois anos (2017/2018), somam-se 11 policiais. E essa contraposição é bastante significativa: a polícia que mais mata é também a que se mata!

E essa situação já se traduziu em algo palpável: a Assembleia Legislativa (Alerj) aprovou, em 26 de setembro, o projeto de lei da deputada estadual Renata Souza (PSOL), que cria o Programa de Prevenção de Violências Autoprovocadas ou Autoinfligidas, com a finalidade de atender e capacitar policiais civis e militares para o auxílio e o enfrentamento do sofrimento psíquico e do suicídio. A iniciativa busca atender a área de saúde mental da Polícia Militar, uma das mais críticas na segurança pública do estado. O texto seguiu para o governador Wilson Witzel (PSC), que decidirá pela sanção ou veto da proposta.

De fato, os policiais do Rio estão atualmente desamparados pelo Poder Público, que não oferece suporte psicológico de forma mais adequada. Trata-se de pessoas que, pela própria ação de trabalho, em confronto direto, matam outras pessoas e que convivem o tempo inteiro com a possibilidade de serem assassinados. Vivem à beira do estresse, da depressão e de adquirir os mais variados distúrbios emocionais. Para vários deles, o desfecho é tirar a própria vida.

Aterrorizante constatar que é nas mãos e armas desses policiais adoecidos que reside a segurança, ou insegurança, cotidiana da população.

Foto: Reprodução

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