Fernanda Torres

Fernanda Torres

‘Não vejo nenhum horizonte num futuro próximo’

 

Os Bulhosa estão de volta à telinha e Maria Teresa está mais terrível do que nunca, na segunda temporada de ‘Filhos da Pátria’, no ar no GloboPlay e na TV Globo. A personagem, vivida por Fernanda Torres, desta vez está nos anos 1930, mas tão ‘delirante’ quanto nos anos de 1922. O clã, formado ainda pelo pai Geraldo (Alexandre Nero), o filho Geraldinho (Johnny Massaro) e a filha Catarina (Lara Tremouroux), arranca gargalhadas do público. Mas a série também faz pensar. Fernanda traça um paralelo entre o Brasil surreal de Maria Teresa e o que segue com absurdas desigualdades e delírios políticos em nossos dias. “Vivi 50 anos pra ir a um lugar e falar: ‘caramba, o mesmo assunto da minha infância’”, diz Fernanda. Confira mais na entrevista!

 

Por onde caminham as questões brasileiras dessa segunda temporada de ‘Filhos da Pátria’?

Logo assim que a gente começou a trabalhar veio a ideia de mostrar que tudo no Brasil continua igual. Então, quem era escravo vira empregado doméstico, quem era corrupto continua corrupto, quem era o dono do dinheiro continua o dono do dinheiro. Então a gente vai pra década de 1930, quando o Exército, as forças de Getúlio [Vargas] atravessam o país e ele amarra o cavalo no Obelisco.

 

E quais são as questões da Maria Teresa nessa temporada?

Ela está é menos focada na ascensão social e mais na loucura com os militares. Ela acha os militares lindos, ela fica sonhando com o Geraldo não ser escriturário, mas ser militar. O filho ser militar. Entra para uma liga de donas de casas perfeitas, que são as mulheres dos militares… Mas o que legal da série é isso: o esqueleto da sociedade continua sendo sempre igual.

 

Há um foco também nas questões trabalhistas, na relação dela com a empregada Lucélia…

A Maria Teresa não consegue entender como uma pessoa tem que ter folga, horário, ela acha um absurdo isso. E como em tudo no Brasil, essas relações se dão pelo afeto, então ela fica magoada da Lucélia ter uma folga. Ela fica triste. Tem uma hora que demite a Lucélia. O [Alexandre] Nero também… O Geraldo parece um cágado, ele é deprimido tem essa mistura do pai amantíssimo, do pai de família… Ele não é totalmente corrupto, mas também não deixa de ser. É um pai bem intencionado, mas também é um canalha. Então, a série fala muito dessas mazelas da sociedade brasileira. A Maria Teresa é uma loucura. Ela é salva porque é uma débil mental, então você acaba se afeiçoando a ela. Não é possível uma pessoa ser tão imbecil assim.

 

Você acredita que o Brasil um dia vai se livrar dessas mazelas que acompanham a gente desde o descobrimento?

Eu acho que são conquistas mínimas e retrocessos e conquistas… A gente está vivendo uma hora meio apocalíptica no mundo, de ‘não tem muito futuro’. Então eu não vejo um futuro em que isso tudo vai estar resolvido. Nasci na ditadura, vivi a redemocratização e aquele sonho: ‘quando a democracia vier, a sociedade vai ser diferente’. Em muitos sentidos, sim. Hoje vivo numa sociedade mais aberta do que vivia quando eu era criança. A crise econômica, no [governo] Sarney, o fechamento pro mundo, isso tudo melhorou.

 

Por outro lado…

Por outro lado, a democracia também nos provou que não há santos, que é um problema estrutural do Brasil. A coisa do jogo político, do poder, se origina muito na nossa raiz. Tem a questão da desigualdade social, que a gente nunca consegue resolver. Da violência aumentando por causa dessa desigualdade social, da questão da educação que nunca é resolvida… Eu não vejo nenhum horizonte num futuro próximo. Vivi 50 anos pra ir num lugar e falar: ‘caramba, o mesmo assunto da minha infância’.

 

Você chegou a se inspirar em alguém pra fazer a Maria Teresa?

Não, ela está nas mulheres, até em você mesma, é um espírito que habita em muitos lugares. Parece a sua tia, a sua mãe, então você tem amor por ela. Mas é um monstro [risos]. Isso é o melhor dela.

 

Como você vê a comédia falando de coisas tão sérias?

Essa é para o Bruno [Mazzeo, autor], né? Filmamos uma cena que a gente pensa: ‘será que tem graça?’. Porque tem o humor, mas várias coisas da Maria Teresa são horríveis assim. Ela fazendo caridade no morro, que é a favela começando na década de 30, na Gamboa acho, e solta: ‘nossa, que lugar exótico, tão diferente do Brasil’. Ela mora ali na Tijuca, então acha que o Brasil é a casa dela. É uma loucura.  A gente ri, mas se reconhece naquele lugar.

 

A gente percebe que o machismo está refletindo em vários momentos na sociedade atual. Você acha que mudou alguma coisa?

Eu acho que mudou. Comecei no cinema em ‘Inocência’, um filme que não tinha sexo. Isso era uma surpresa absoluta. O que sustentava o mercado cinematográfico no Brasil era pornochanchada. Teve filmes incríveis como ‘Bye Bye Brasil’ e ‘Memórias do Cárcere’, mas tinha quase uma obrigação de ter cenas [de sexo]. Eu acho que as relações pessoais melhoraram, houve mudança sim. Eu acho que a relação com meus filhos é diferente hoje. Nunca se matou tanta mulher, ou talvez nunca soubemos com detalhes essas informações. Mas acho que existe uma consciência maior hoje.

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