‘Lugar de preto é onde ele quiser’

Fotos: Divulgação

Por Claudia Mastrange

Uma mulher cheia de sonhos, mas que arregaça as mangas, vai à luta e busca construir cada um deles. Assim é Paula Dias, que há 11 anos comanda a ONG Afrotribo, que trabalha para resgatar a autoestima de jovens negros e negras, em São Gonçalo, no Rio. Em janeiro, Paula realizou o 1º Prêmio Ubuntu, que objetiva enaltecer a cultura negra e ações que fortalecem a cultura afro-brasileira, e homenageou personalidades que se destacaram em diversas áreas. Mais um projeto vitorioso, dos muitos que já estão planejados para 2020.

“Sabe como pensei nesse prêmio? Inspirada no Oscar. Quando criança eu via aquela gente elegante no tapete vermelho e pensava: porque meu povo não está ali? Até hoje a representatividade deixa a desejar. São pouquíssimos negros premiados. Então decidi criar o meu para homenagear tantos que trabalham sério. Passei noites em claro planejando, viabilizando. Queria o palco do Theatro Municipal e o próximo vai ser lá. Muitos disseram: você é louca. Não, sou apenas uma pessoa que cansou de não me ver representada nas grandes premiações e, ao invés de aceitar e cruzar meus braços, resolvi arregaçar as mangas e botar pra ferver. Ouvi que teatro não é lugar de preto. Sim, lugar de preto é aonde ele quiser!”.

Paula Dias (D), na noite de entrega do 1º Prêmio Ubuntu

Paula nasceu no município de Santo Antônio de Pádua, no noroeste fluminense, e trabalhava como técnica de enfermagem e de laboratório. No dia a dia da área da Saúde via coisas lindas, como o parto, o início da vida’, mas viu também muito sofrimento. “Dor e morte de crianças me deixavam extremamente abalada. Não conseguia lidar com aquilo e me afastei. Mas queria um trabalho em que pudesse ajudar as pessoas, ser útil à sociedade. Então comecei no trabalho voluntário. É cansativo e desafiador, mas, em uma hora, com um evento, muitas vezes você muda a vida de uma pessoa”, conta.

A ONG atende a cerca de 200 jovens de 4 a 32 anos, buscando parcerias e promovendo ações sociais de vários tipos. Com o trabalho de 13 voluntários, busca abranger os 92 bairros de São Gonçalo. Com isso já foi possível tirar muitos de situações de vulnerabilidade. “Um dos meninos, que trabalhava com o tráfico, mudou de vida e hoje tem dois estabelecimentos comercias”, conta.

Sala de Leitura Ruth de Souza: acervo de seis mil livros

Em 25 de março, Paula vai inaugurar a Sala de Leitura Ruth de Souza, em Venda da Cruz (Rua Dr. Porciúncula, 395), em São Gonçalo, com direito a debates, palestras sobre empreendedorismo e violência contra a mulher, declamação de poesia e o lançamento do livro ‘Meritórias’, de Tatiana Sant’Anna e Felipe Santos. A sala já abre com um acervo de seis mil livros. “Tudo fruto de doações. E a Prefeitura de São Gonçalo cedeu o espaço. Mas não dá para esperar só pelo poder público. Se arregaçamos as mangas, conseguimos coisas incríveis”, diz Paula.

As salas de leitura têm o objetivo de resgatar no jovem o prazer de ler. E também criar um espaço para palestras, cursos… Incentivar tanto a formação de leitores, quanto de novos escritores e roteiristas. Outras duas salas serão inauguradas nos próximas semanas: a Sala Conceição Evaristo (28/03), no Colégio Castelo Branco, em São Gonçalo; e na Ilha das Flores, na Marinha do Brasil, será inaugurada a Sala Sawabona (07/04). Sawabona em um dialeto africano significa “eu te respeito, eu te valorizo, você é importante”, nome de um livro infantil lançado por Paula em 2018.

Ainda em 2020, a Afrotribo vai lançar também o projeto Educamoda, em que os alunos terão a seu dispor cursos da área de moda. “Serão aulas de produção, corte e costura, etiqueta, passarela… Todas as fases que movem a indústria da moda. É preparação para o mercado de trabalho”, conta Paula, que realizou, em novembro de 2019, o concurso Miss Beleza Negra, que vai ganhar versões em Niterói e São Gonçalo.

Ou seja: o ano está ficando curto para tantas ações que buscam valorizar e criar oportunidades para os jovens de áreas menos favorecidas economicamente. “Criar uma escola de modelos onde os negros sejam protagonistas também era um sonho. Fico muito feliz de ver tanto resultado positivo. Nada é fácil, mas vamos em frente com a cara e a coragem”, encerra Paula Dias.

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