Pandemia que também ameaça o ganha-pão de cada dia

Rio de Janeiro com ruas vazias e comércio fechado: cenário do isolamento social para evitar a disseminação do coronavírus

Por Franciane Miranda

Não podemos brincar com o coronavírus. O seu alto grau de contágio o classifica como um dos vírus mais letais da atualidade. Até o fechamento desta edição, o Estado registrava 421 casos confirmados e nove mortes pelo Covid-19. De acordo com o boletim divulgado pelo Ministério da Saúde em 29 de março, foram registrados 2.988 infectados em todo território nacional. Até então, 77 mortes foram contabilizadas no Brasil. No mundo, são mais de meio milhão de casos confirmados e cerca de 23 mil vítimas fatais pelo coronavírus. China, Itália, Espanha e Estados Unidos são os mais afetados pela pandemia que deixou cidades do mundo vazias e um cenário difícil de acreditar e esquecer.

Falando de economia, que já amargava tempos difíceis, hoje ela caminha para um total colapso. O mercado de trabalho do Rio já sofre os impactos da crise gerada pelo Covid-19. Muitos cariocas perdem seus empregos e vários estabelecimentos são fechados. Os autônomos, além de pequenos comércios, estão entre os mais prejudicados com esta crise, que não há uma previsão certa para acabar.

Ana Victorio trabalha no shopping Rio Sul, um dos mais movimentos da Zona Sul carioca. A vendedora conta que está muito preocupada, pois havia sido decretado, por medida de segurança, o fechamento do local por 15 dias. Ela explica que no momento está em casa, passando por uma situação muito difícil: como milhões de brasileiros, Ana conta apenas com o seu pagamento. Ela não sabe como vai pagar as contas, além de não ter ideia de quanto seria sua remuneração, pois depende também das comissões. A jovem espera que o governo tome alguma atitude o mais breve possível sobre o problema. “Com a atual situação, eu tenho esperança que eles façam algo por nós”, diz Ana.

Já a autônoma Vania Pedrassoli, que trabalha vendendo bolos, declara que as vendas estavam ótimas, com muitas encomendas, antes do avanço do Covid-19. A confeiteira disse que vários pedidos foram cancelados e outros adiantados sem previsão de datas. Ela, que é proprietária da Cake Design, também produz doces para eventos e esclarece que, infelizmente, não tem trabalho durante esse período de reclusão. Sem outra fonte de renda, Vania está preocupada e busca uma solução. “De repente coloco um delivery com alguns produtos que possam ser transportados por motoboy”, diz.

Trabalhadores informais seguem as restrições da Prefeitura do Rio

Os transtornos causados pelo vírus felizmente não prejudicaram a empregada doméstica Sandra Maria dos Santos. Ela conta que trabalhou alguns dias, mas foi liberada diante das recomendações para que população ficasse em isolamento social. “Estou com medo de sair de casa, mas como eu ganho por dia, precisava ir trabalhar”, desabafa. Sandra, que trabalha para duas famílias, dois dias na semana, foi liberada pelas suas patroas, que mesmo assim lhe pagaram a diárias. “Fiquei muito feliz e aliviada com as atitudes das duas, pois assim posso ficar em quarentena”, conclui.

Trabalhando com o público

Mas para quem trabalha diretamente com público, a situação é bem diferente. O taxista Breno Silva fala que o movimento antes do aumento dos casos do vírus estava bom. Atualmente ele classifica como péssimo e, diante desta da crise, parou suas atividades como motorista. Ele alega que havia uma semana que não dirige e descreve que as ruas, tanto de dia quanto à noite, encontram-se vazias. “Nem vale a pena, pois só gastamos combustível”. Ele não precisa pagar diária, mas chama a atenção para os taxistas que necessitam, pois conhece alguns amigos que estão vivendo esse drama. “Essa categoria precisa de ajuda, pois para os que continuam trabalhando existe o risco de contrair a doença e não ter retorno financeiro”, detalha.

O drama dos trabalhadores que sobrevivem fazendo entregas parece estar longe de acabar. Bastante preocupado, o entregador de aplicativos Fabrício Assis dos Santos afirma que continua trabalhando pelo Centro do Rio. Sem nenhuma renda extra, sua única fonte vem das entregas através dos aplicativos Ifood e Rappi. Ele aponta que, após começar a pandemia, o movimento baixou muito, porque várias empresas seguem fechadas. Sem perspectivas, Fabrício segue trabalhando com esperança. “Pago aluguel, além das despesas da casa, e minha esposa está grávida. Então vou trabalhar com fé em Deus”, afirma.

Estação do metrô no Flamengo com pouca movimentação no primeiro dia de comércio fechado

A recomendação para a população não ir para as ruas afetou milhares de profissionais que dependem exclusivamente deste público para sobreviver. De acordo com a Prefeitura do Rio, serão adquiridas 20 mil cestas básicas destinadas para este público que enfrenta dificuldades econômicas decorrentes do coronavírus, como autônomos, taxistas e ambulantes legais.

O entregador Maicon Silva passa por um momento delicado: foi diagnosticado com o novo coronavírus em 18 de março. Ele conta que foi bem atendido no Hospital Estadual Carlos Chagas, em Marechal Hermes, na Zona Norte. Seguindo recomendações médicas, o autônomo teria que ficar isolado por 14 dias. Morador do bairro de Anchieta, ele trabalhava pela Zona Sul e Centro da cidade, onde acha que contraiu o vírus.

Em uma recente edição, o Diário do Rio abordou a complexa situação dos milhares de entregadores que sobrevivem prestando este serviço. A uberização, entre outros fatores, prejudica os trabalhadores, pois não oferece nenhum direito em situações como esta que vive Maicon. Ele mesmo, pai de duas meninas, explica que está sem trabalhar, não possui outra renda e depende do seu ofício atual para cuidar de sua família. Seu plano para o futuro é o de melhorar e voltar para labuta. “Preciso voltar a trabalhar porque estou precisando muito”, conclui.

Fotos: Tânia Rêgo/Agência Brasil

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