Alexandre Lino

"Faço todas as outras coisas para o ator que sou"

Nascido em Gravatá /PE,  ALEXANDRE LINO muda-se para o Rio de Janeiro em 1993. Fala italiano, pois morou na Itália em 1999. Ator, documentarista e produtor de Arte há 15 anos. Tem formação em artes. É Bacharel em Cinema pela UNESA e pós graduado em Artes Cênicas pela mesma instituição. Atuou durante anos na Resistência Cia. de Theatro, Cia de Teatro Artesanal e integrou a Cia de Ópera popular.

 

Como é nascer em Gravatá e hoje ser Alexandre Lino, o artista multifacetado?

É ter a certeza das escolhas certas que fiz até aqui, mesmo tendo errado muito no percurso. Mas foi esse se levantar e cair, que fizeram de um menino o homem que sou agora. Tenho orgulho do Artista, mas muito mais do menino de Gravatá.

Teve muito perrengue?

Muitos. Os primeiros 2 anos foram muito difíceis. É um período de adaptação, descobertas e escolhas. Sendo um menino do interior do Nordeste a realidade de uma cidade como o Rio de Janeiro assusta. Conheci de perto a fome, a hostilidade e a disputa. No entanto, tudo foi importe, mesmo que doloroso.

 Alexandre, você é ator, documentarista e produtor de arte. O que te moveu para esse universo?

A arte é o que move. Tenho formação em Cinema e especialização em Artes Cênicas. No cinema o documentário foi meu objeto de estudo e pesquiso essa linguagem no Teatro até hoje. A produção de arte foi uma descoberta, uma oportunidade e um presente que vida me deu. Ganhei uma outra profissão, que exerci por 7 anos, e agradeço imensamente ao Diretor de Arte Alexandre Farias que me ensinou tudo sobre esse ofício. Faço todas as outras coisas para alimentar o Ator que sou.

Uma referência artística?

Antônio Abujamra. O Mestre, o Sábio e o maior Homem de Teatro com quem tive o privilégio de conviver. Ouvi ele falar repetidas vezes, as frases que nortearam e dão apoio a minha trajetória:

“O fracasso e o sucesso são igualmente impostores na vida de um artista”.

“Qualquer mente medíocre tem uma ideia brilhante. O genial é realizá-la”.

 

 

No Cinema, “Lady Christiny””, “Ensaio Chopin”, “Amor Puro” e “Simplesmente”. Embora com roteiros diferentes, qual deles você curtiu mais? Por quê?

Lady Christiny, certamente. Meu primeiro filme, uma história extraordinária e uma personagem incrível. Esse filme só me trouxe felicidade. Não que os outros não tenham promovido, mas Lady foi um encontro. Ganhei alguns prêmios com esse curta e acabei fazendo a transposição para o Teatro com texto final de Daniel Porto e direção de Maria Maya. Um sucesso de crítica e público. Impulsionado por esses 3 curtas acabei filmando meu primeiro longa documentário. SAUDADES ETERNAS. Inédito no Brasil, mas foi exibido no 7º FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA DE LUANDA.

As produções infantis realizadas por você, vem ganhando bastante reconhecimento pela forma diferenciada na comunicação com as crianças. Foi um processo de pesquisa ou espontâneo?

Foi uma preocupação. Um percentual significativo do Teatro feito para crianças é de produções sem qualquer esmero estético, conteúdo ou linguagem. Busquei, junto com o autor Daniel Porto, resgatar clássicos e apresentá-los de uma forma que prestigiasse a inteligência dos pequenos, mas também dos pais ou adultos que as acompanham. Criamos o título de TEATRO PARA TODA FAMÍLIA que o Jornal do Brasil reconheceu em 2018. Hoje somamos quase 10 produções e mais de 100 mil espectadores. A partir dessa busca nasceu o projeto MÚSICA CLÁSSICA NO TEATRO PARA TODA FAMÍLIA.

Me conta um pouco desse projeto solidário em prol dos nordestinos durante a pandemia do coronavírus?

No meu trabalho artístico, em momentos pontuais, resgato as questões da migração nordestina. Foi assim com a trilogia: Domésticas (2012), Nordestinos (2015) e O Porteiro (2018). Para mim trata-se de um compromisso moral com o meu povo e minhas origens. E por dialogar com muitos conterrâneos vi o tamanho da dificuldade que inúmeras famílias estão passando. É fome mesmo. Não podia ficar apenas observando. Lancei a campanha NORDESTINOS CONTRA A PANDEMIA para ajudar com cestas básicas as famílias mais necessitas. É muita gente solicitando esse apoio e outros nordestinos ajudando como: Wal Schneider do projeto No Palco da Vida e Gilberto Teixeira do Comitê dos Nordestinos.  Estamos contando com a solidariedade de colaborações de amigos e anônimos no https://benfeitoria.com/nordestinos  

Analisando sua trajetória, a gente percebe que você é um artista empreendedor. Como você analisa o Brasil após essa pandemia?

O empreendedorismo torna-se cada vez mais fundamental para o artista. Num momento como esse, por exemplo, existem apenas duas opções: esperar passar e a outra estar preparado para quando passar. Serão dias difíceis, mas piores para quem não se organizou e fez qualquer planejamento.

No teatro, espetáculos como “Nordestinos”, “O Porteiro”, “Acabou o Pó”, e muito mais. Tens algum carinho especial por qual?

Você citou 3 sucessos de crítica e público. Ambos ocupam o mesmo lugar. O lugar do prazer, da escolha acertada e do reconhecimento. Não há como atribuir maior ou menor carinho. Já os fracassos…. Esses a gente esquece.

Esse comportamento discreto e muito simples teria alguma relação com infância nordestina?

Sim. Às vezes, pensamos que não há mais espaço para o simples, para a honestidade, para a gentileza, para a discrição… Aí vejo o mundo passando por tudo isso e agradeço todos os dias por preservar em mim, os valores mais essenciais que aprendi na infância.

Uma frase?

“Eu não sou exemplo, sou uma exceção na sociedade brasileira, que é extremante compartimentada e coloca dificuldades para que você consiga subir degraus dentro dela”.  Luiz Rufatto – Autor.

 

Nessa turbulência que o Brasil vive, qual a sua percepção atual?

Como bem diz o ditado da sabedoria popular: Não há bem que dure para sempre, nem mal que não tenha fim.

Você acredita que esse processo de quarentena seria capaz de mudar alguma coisa na humanidade? Em você, o que mudou?

Estamos sempre evoluindo. Acredito nisso. Evidente que não será uma transformação generalizada e revolucionária, mas alguns serão afetados positivamente e isso é muito bom. Eu estou aprendendo a ouvir mais, saber esperar com paciência e fazer minha própria comida.

Após essa pandemia, certamente a cultura levará um bom tempo para se reerguer. Já pensou em alguma nova possibilidade? O que você acha que poderá acontecer?

Acredito que haverá um desejo mútuo para esse reencontro (público e artistas), mas sofreremos os reflexos de uma crise econômica muito grande.  Tenho estudado muito sobre infoproduto e isso tem sido muito interessante. No mais, é o risco, o medo, e a descoberta que estarão sempre presentes na vida de qualquer pessoa. O que pode acontecer nunca saberemos, mas que artistas não esmorecem jamais, isso é certo. A história diz isso e irá registrar mais esse capítulo que iremos vencer.

Fotos: Reprodução

 

 

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