Compulsão por compras na quarentena

Foto: Pixabay

Por Franciane Miranda

Comprar é algo que fazemos o tempo todo. Um hábito normal para milhares de pessoas no mundo. Infelizmente, o ato de adquirir algo pode se tornar um vício e trazer muitos problemas para quem desenvolve a compulsão por compras. Mas quando identificamos se estamos exagerando? A reportagem do Diário do Rio conversou com a psicóloga Marina Prado Franco, que explicou o que é a doença, os problemas que ela traz e como a quarentena pode afetar e até desenvolver este transtorno.

De acordo com a psicóloga, a pessoa não consegue diminuir ou se controlar. Há um sentimento de ansiedade e angustia levando muitas vezes a gastar mais do que podem pagar e adquirindo produtos sem precisão. “É um transtorno do controle do impulso, no qual há uma preocupação excessiva com comprar ou impulsos mal adaptativos de comprar”, diz.

O isolamento social aliado às facilidades das compras online pode prejudicar ainda mais quem possui este transtorno. “O mercado online pode ser um ‘vilão’ para quem é um comprador compulsivo”. Segundo Marina, a facilidade de obter sem sair de casa e no horário em que quiser atrapalha ainda mais. “O ato de comprar se torna imediato, sem aquele tempo entre o desejo de comprar e o ir até a loja, que poderia servir como um fator que dificultasse a compra em si”, afirma.

Para Marina, a pandemia, quarentena e o isolamento social que estamos passando são fatores que contribuem para desenvolver ou agravar o quadro. “Pode ser um gatilho para o comprar compulsivo, visto que podemos estabelecer um sistema de recompensa pelo mal-estar sentido, no qual nos ‘presenteamos’ para que possamos nos sentir melhor. O perigo está na repetição e criação de um hábito”.

Psicóloga Marina Prado Franco (Foto: Divulgação)

Marina instrui que a pessoa acaba criando a rotina de comprar como uma maneira de recompensar por algo ruim que está vivenciando, mas deixa claro que isso pode ser um perigo. “No início fazemos isso por querer obter prazer. Mas, ao repetirmos isso algumas vezes, o cérebro ativa o sistema de ‘recompensa’ e passamos a fazer porque ‘precisamos’ sentir aquilo novamente. Então, perdemos o controle aos poucos e podemos nos tornar dependentes”, diz.

Uma pessoa com compulsão por compras geralmente não consegue se controlar sozinha e, por isso, recomenda-se que ela procure ajuda de um profissional para dialogar sobre o que está sentindo e os motivos que o levaram ao ato. “Um comprador compulsivo dificilmente conseguirá se controlar sozinho, visto que o impulso aparece de uma forma avassaladora”, alerta a psicóloga. Em alguns casos, a família dificulta o acesso aos cartões de crédito, gerando conflitos. Nesses casos é essencial a presença desse profissional para ajudá-lo a passar pelo momento.

Sinais da compulsão

Marina avisa que as pessoas precisam ficar atentas aos sinais na compulsão por compras online. “Comprar muito além do necessário, inclusive vários produtos semelhantes ou iguais ao que já tem; comprar escondido; mentir sobre gastos; descontar tristezas e ansiedade nas compras; passar do limite com o cartão de crédito; pegar empréstimos e cartões de créditos de outras pessoas para realizar compras online; se sentir culpado após gastar excessivamente; entre outros, são alguns exemplos”.

A profissional esclarece que, em alguns casos, é necessário o uso de remédios que o ajudem a controlar a compulsão. “O tratamento medicamentoso será necessário somado à psicoterapia e a terapia de grupo, pois com essas medicações o controle da ansiedade e a regulação do humor ajudarão na questão do autocontrole”, informa.

Marina afirma que o apoio dos entes queridos é fundamental na hora de enfrentar o problema. Muitas vezes a família é quem nota os indícios da doença. “O indivíduo está tão emocionalmente ativado que não se autopercebe”. Ela indica algumas situações onde o parente pode ajudar. “Na observação do comprador compulsivo, no controle de estímulos, limite de acesso ao cartão de crédito, controle das finanças do outro”. Outra dica é evitar ir aos shoppings ou ambientes com lojas. E quando a pessoa não aceita que possui o problema é necessário ter ao seu lado alguém que a oriente a procurar um tratamento médico ou psicológico.

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