Saída de Moro do governo: quem está mentindo?

Foto: Agência Brasil

Por Sandro Barros

O bizarro episódio da saída do ministro da Justiça, Sérgio Moro, no dia 24 de abril, representa até o momento o mais forte impacto no governo de Jair Bolsonaro. Moro denunciou, em entrevista coletiva, sucessivas interferências do presidente da República nas investigações que envolvem ele e a sua família, inclusive nas que circulam no Supremo Tribunal Federal (STF).

Um dia antes, o pedido de demissão de Moro explodiu diante da intenção de Bolsonaro em trocar o comando da Polícia Federal (PF), até então a cargo de Maurício Valeixo, braço direito do então ministro. Essa queda de braço já havia se desenhado em agosto do ano passado, mas agora Bolsonaro se demonstrava irredutível. Apesar da ala militar do governo ter tentado apaziguar os ânimos, o presidente publicou a exoneração de Valeixo na manhã do dia 24.

Horas depois da exoneração, Moro anunciava sua saída atirando. O ex-juiz fez uma relação de crimes cometidos por Bolsonaro, desde crime de responsabilidade e obstrução de Justiça ─ por interferir nas investigações contra seu governo e pedir acesso a documentos sigilosos de inteligência ─ até falsidade ideológica ao colocar a sua assinatura na exoneração de Valeixo.

Moro afirmou que o real motivo para trocar o comando da PF tinha a ver com o avanço das investigações envolvendo o “gabinete do ódio” na CPI das Fake News, e suas implicações contra o filho do presidente, o vereador do Rio Carlos Bolsonaro. Além disso, já se sobrepunham o desgaste do caso Queiroz e o esquema de “rachadinhas” no gabinete de seu outro filho, o senador Flávio Bolsonaro ─ da época em que era deputado estadual do Rio de Janeiro ─, e com todos os desdobramentos que isso produziria a partir do envolvimento com as milícias.

Bolsonaro bem que tentou contornar a situação, apresentando-se ao lado de quase toda a equipe de ministros para pronunciamento em rede nacional na tarde do mesmo dia, para se defender das acusações e chamar Moro de mentiroso. Mas a emenda pareceu pior que o soneto: o presidente negou que interferisse no trabalho da PF, mas admitiu que buscava um interlocutor direto para conhecer algumas investigações. “Quero um delegado com quem eu possa interagir. Porque não?”. Ao invés de esclarecimentos, ficaram mais dúvidas sobre quem estava falando a verdade ou, pelo menos, parte dela.

Doa a quem doer

A ruidosa saída do ministro, além de gerar desconfianças sobre o próprio governo, ajuda a corroer grande parte do próprio bolsonarismo, que aderiu ao seu projeto em nome do combate à corrupção representado na figura de Moro, personagem de maior destaque na operação Lava Jato. Com a notoriedade conquistada, o ex-juiz dava o tom ético a um governo com vários membros acusados de envolvimentos com milicianos e corrupção. Não por acaso, Moro era mais popular que o próprio presidente ─ mais de 50% de aprovação, enquanto Bolsonaro balança na casa dos 30%.

Bolsonaro, durante o seu citado pronunciamento, desafiou o ex-ministro a provar o que este havia dito. Agora, em entrevista à revista Veja, Moro afirmou que, além de provas que serão apresentadas ao STF, há testemunhas. “Embora eu tenha um grande respeito pelo presidente, não posso admitir que ele me chame de mentiroso publicamente. Ele sabe quem está falando a verdade. Não só ele. Existem ministros dentro do governo que conhecem toda a situação e sabem quem está falando a verdade”, disse. Declaração intrigante, diga-se de passagem, pois se o ex-ministro tinha conhecimento de tais absurdos, sua omissão não o torna cúmplice?

No andar da carruagem, o ministro do STF Celso de Mello decidiu abrir, no dia 27 de abril, um inquérito para investigar as declarações feitas pelo ex-ministro. Sua decisão atendeu a um pedido feito pelo procurador-geral da República, Augusto Aras. Com a abertura da investigação, uma das primeiras medidas será a convocação de Moro para prestar depoimento e entregar eventuais provas dos possíveis crimes cometidos por Bolsonaro, além de denunciação caluniosa e crime contra a honra sobre Moro, caso suas acusações forem falsas.

Diante da troca de acusações, resta-nos exigir que elas sejam de fato investigadas, sem que haja barganha política para impedir que a verdade prevaleça. E, após isso, caso se confirme a prática de crime seja por quem for, que haja a devida punição, doa a quem doer. Isso é o mínimo que se pode esperar diante de todo esse tiroteio travado no Palácio do Planalto.

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