Mesmo em quarentena, cresce consumo de bebidas alcoólicas

Foto: Pixabay

Por Sandro Barros

No Brasil, a venda de bebidas alcoólicas aumentou durante a pandemia do novo coronavírus, segundo pesquisa feita pela Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead). Nas distribuidoras, as vendas cresceram 38%. Já nas lojas de conveniência o aumento chega a 27%.

O assunto é tão sério que levou a Organização Mundial de Saúde (OMS) a dar seu alerta. ‘O álcool não protege contra a covid-19, o acesso deve ser restrito durante o confinamento’ é o título de um artigo que a entidade publicou em sua página na internet. E não é por menos: estudos mostram que o consumo de álcool tem influência negativa no sistema imune, tornando o organismo mais vulnerável a infecções por bactérias e vírus. Além disso, o álcool colabora para a ocorrência de depressão, entre outras enfermidades.

Gabriela Henrique é psicóloga e especialista em dependência química pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), entre outras formações, e diretora executiva da Psicuide Clínica e Consultoria. Nesta quarentena ela identificou o aumento da demanda de casos na área do alcoolismo e tem se empenhado para atender aqueles que solicitam a psicoterapia.

“A pouco mais de 60 dias de isolamento social, se percebe um aumento mais significativo na ansiedade, no tédio e no ócio de muitas pessoas. Onde as mesmas se mantém procurando formas de prazer imediatas e acabam recorrendo à bebida alcoólica com mais frequência e intensidade”, diz Gabriela, que também indica os grupos de Alcoólicos Anônimos (A.A.) para quem quer se informar e obter ajuda pela forma prejudicial de beber. Para saber mais, basta acessar a página de A.A. na internet ─ www.aa.org.br ─, que também disponibiliza reuniões à distância diariamente durante a quarentena, sempre às 20h.

Uma doença que mata

O beber exagerado pode indicar que a pessoa seja alcoólatra. E alcoolismo é considerado uma doença desde 1973 pela OMS. Para a agência de saúde da ONU, “um alcoólatra é um bebedor excessivo, cuja dependência em relação ao álcool é acompanhada de perturbações mentais, da saúde física, da relação com os outros e do seu comportamento social e econômico”. Além disso, é uma doença incurável, progressiva, causa a morte prematura e não distingue idade, sexo, raça ou situação socioeconômica do seu portador.

O alcoólatra quase sempre tem enorme dificuldade em parar de beber. Quando ingere álcool, invariavelmente tem início uma compulsão e a perda do controle diante da bebida é inevitável, chegando a abandonar outras atividades em prol do álcool. Como não consegue abandonar a bebida, o portador da doença não prejudica apenas a si mesmo, mas também quem está ao seu redor, como familiares e amigos.

Estudos científicos comprovam que alcoolismo é uma doença biopsicossocial. Isso significa que para o seu desenvolvimento existem fatores biológicos ─ genéticos, bioquímicos, como exemplos ─, fatores psicológicos ─ estado de humor, de personalidade, de comportamento, etc. ─ e fatores sociais ─ culturais, familiares, socioeconômicos, médicos, entre outros. Então, fica a dica: se você bebe sem controle, muda seus hábitos para beber e faz coisas que não faria caso estivesse sóbrio, pense no assunto e, se for o caso, procure ajuda.

Psicóloga Gabriela Henrique (Foto: Arquivo pessoal)

Custos maiores e alarmantes à saúde

Por Gabriela Henrique

Para alguns, estar em casa é uma proteção para não beber e estes fazem disso uma oportunidade para atividades físicas, dietas, manutenção do peso ou a força para se manterem sóbrios, mesmo em meio a preocupações. Para outras pessoas, o beber passou a ser o lazer, a hora de esquecer, de “não sentir”, ou até mesmo ser a forma de chegar ao sono, para driblar a ansiedade e outras questões emocionais, despertadas pelo momento.

O risco é aumentar a tolerância à bebida alcoólica e isso passar a ser uma demanda, mesmo após o retorno aos dias comuns, além de aumentar o índice de violência doméstica ou acidentes domésticos, entre outros percalços. A frequência e o excesso do beber trazem custos maiores e alarmantes à saúde, que podem evoluir para abuso ou para a dependência química do álcool, além de prejuízos como a hipertensão, o diabetes, doenças gástricas e renais.

Logo, vale repensar que outras formas de prazer podem ser criadas e obtidas, neste momento desafiador, mas que pode também ser inovador e criativo na vida das pessoas e das famílias! Promover a interação social, mesmo que virtual, de forma lúdica, pode ser bem mais saborosa e com boas consequências, tendo histórias boas para contar assim que isso acabar!

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