Cavaleiros do Apocalipse

‘Apocalypse’, de Albrecht Dürer/Reprodução

Nos quatro cantos da Terra, os quatro cavaleiros, da profecia bíblica do livro de João, carregam a coroa e o cedro, a espada, a balança e o jarro. E também trazem consigo o símbolo da conquista do poder, da guerra, da injustiça da fome e da peste, respectivamente. Tais seriam os flagelos destinados aos homens como punição por sua própria miséria moral.

Simbolismos à parte, essa representação nos faz refletir sobre o agonizante cenário mundial que ora intercala conflitos bélicos civis e internacionais: no Congo, com a tribo Lendu; na Colômbia, com o Exército de Libertação Nacional; no Iêmen, com movimento huti − junto às intervenções da Arábia Saudita e de seus aliados −; nas Filipinas, com a guerrilha comunista e o levante islâmico; e, por fim, nas dissidências entre os Estados Unidos, a China e a Coreia do Norte. Isso somente para citar alguns casos.

É fato incontestável que todo contexto de conflito político, em particular as situações de luta armada, trazem em seu bojo a violência, a destruição, a pobreza extrema, a doença e a morte. Junte-se a isso a pandemia causada pela covid-19, que causou até agora mais de 440 mil mortes em todo o mundo e a estagnação da economia, e temos em mãos a oportunidade única de parar literalmente da corrida do dia a dia para pensar no que não está mais dando certo e repensar valores.

Em vista de tal calamidade, tanto para a saúde pública como para a sociedade como um todo, justo seria esperar que os países em situação de guerra, curvando-se diante de um poderoso inimigo comum, acatassem o cessar fogo que foi exortado em março pelo secretário geral das Nações Unidas, António Guterres. Ao invés disso, vemos situações de inescrupuloso oportunismo, sejam por lideranças institucionalizadas, sejam por meio de rebeldes radicais, para ganhar mais espaço na geopolítica do poder. Haja vista o caso do Estado Islâmico, que assumiu a autoria de um ataque que matou 27 pessoas e feriu outras 55 no Afeganistão no dia 6 de março desse ano. Ou o grupo rebelde da Colômbia, que tem recrutado venezuelanos desesperados que passam por pontos de controle da guerrilha.

Diante dessa visão incompreensível e aterradora, o quadro de Dürer, com seus quatro cavaleiros alegóricos, nos surge como uma revelação. A revelação de que a humanidade pagará o ônus de suas próprias escolhas.

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