O Dr. Rodrigo Gonçalves Pimentel, especialista em estruturação patrimonial internacional, aponta que, em um contexto marcado por sucessões sem herdeiro disposto a operar, a renda passiva deixa de ser plano alternativo. A pergunta muda de figura. Em vez de escolher quem vai tocar a operação, a família decide se a operação precisa continuar existindo daquele jeito.
Manter uma indústria funcionando exige presença diária, decisão rápida e apetite por risco. Sem alguém com esse perfil dentro de casa, o negócio passa a depender de terceiros para tudo, e o patrimônio corre atrás de um comando que não existe mais. A alternativa não é vender às pressas, porque existe caminho intermediário entre operar e liquidar.
Operar deixa de fazer sentido quando ninguém quer a cadeira
Uma fábrica parada por indecisão vale menos a cada trimestre. Máquina envelhece, cliente migra, equipe técnica se dispersa. A conversão em ativo de renda preserva o que ainda tem valor de mercado, porque transfere a operação para quem vive dela e mantém com a família a propriedade do imóvel, da marca ou da terra.
Conforme detalha Sideni Soncini Pimentel, a escolha entre operar e alugar precisa considerar o retorno real do negócio, e não apenas o faturamento que impressiona na conversa de família. Operação que entrega margem apertada e consome capital de giro raramente supera o aluguel previsível do mesmo galpão locado a um operador logístico.
Como um ativo operacional vira fluxo de aluguel?
O caminho depende do setor e do tipo de ativo que a família controla. Planta industrial vira galpão locado, rede de lojas vira licenciamento de marca com royalties, fazenda vira contrato de arrendamento de longo prazo. Em todos os casos, o desenho contratual carrega o resultado, com prazo, índice de reajuste, garantias e regra de rescisão definidos antes da assinatura.

Contrato longo sem trava de correção transforma renda em prejuízo silencioso ao fim de alguns anos. Na ótica de Rodrigo Gonçalves Pimentel, a negociação do reajuste e das garantias vale tanto quanto o valor inicial acordado, já que a família viverá daquele fluxo por décadas, sem o amortecedor de um novo ciclo de vendas.
O risco que sai junto com a operação
Quem opera responde por acidente de trabalho, passivo ambiental, recall de produto e disputa trabalhista. Quem aluga responde pelo imóvel e pelas obrigações do contrato. A diferença de exposição jurídica entre as duas posições costuma pesar mais na conta final do que a diferença de receita bruta entre elas.
Na avaliação do advogado Sideni Soncini Pimentel, desembargador aposentado que atua de forma consultiva e estratégica após mais de quatro décadas na magistratura, processos trabalhistas e ambientais alcançam sócios com frequência maior do que a família imagina ao manter a atividade em funcionamento sem gestão profissional no comando.
Renda menor e previsível supera resultado incerto
Ser dono de dez por cento de um ativo que rende com regularidade costuma ser melhor do que carregar cem por cento de uma operação deficitária. A comparação incomoda o fundador, porque reduz o tamanho aparente do império construído, embora aumente o que efetivamente chega à conta dos herdeiros todo mês.
Conforme dimensiona Rodrigo Gonçalves Pimentel, a desmobilização bem conduzida não encerra a história da família no mercado, e sim troca o esforço operacional por um patrimônio administrável à distância. Quem quiser empreender depois faz isso com capital próprio, sem a obrigação de reanimar um negócio herdado.
Sobre os especialistas
Rodrigo Gonçalves Pimentel é advogado, empresário e sócio do Pimentel & Mochi Advogados Associados. Sua atuação envolve questões empresariais, patrimoniais, societárias e sucessórias relacionadas a empresários e famílias empresárias.
Sideni Soncini Pimentel é advogado, desembargador aposentado e integrante do Pimentel & Mochi Advogados Associados. Após uma trajetória de mais de quatro décadas na magistratura, iniciou uma nova fase profissional na advocacia, com atuação consultiva e estratégica.
