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Helena Meireles, brasileira entre os 100 melhores guitarristas do mundo

Por Claudio Camillo

Helena Meirelles, mulher, brasileira, violeira formidável. Escolhida em 1993 pela revista Guitar Player como uma das 100 mais, por sua performance nas violas de 6, 8 e 12 cordas. História interessante a dessa mulher magra, estatura mediana, olhar arguto e dedos ágeis. Sua música flui fácil como fosse de um canal em linha direta com a própria alma.

Acostumada ao convívio com os peões de boiadeiro no Mato Grosso, entrou em contato com a viola caipira por intermédio desses mesmos peões e começou a dedilhar os primeiros acordes e harpejos às escondidas, pois viola era coisa de homem. Na famí-lia isso era assunto proibido e encerrado.

Foi aos poucos ficando conhecida entre a peãozada da região. Casou-se por imposição dos pais aos 17 anos, abandonou o marido pouco depois e juntou-se com um paraguaio violeiro que tocava também violino. Separou-se novamente e resolveu tocar violas em bares da região. Deixou os filhos dos dois casamentos com os pais adotivos e se foi estrada afora. Encontrou o terceiro marido, com quem viveu por mais de 35 anos.

Helena desapareceu por mais de 30 anos e foi encontrada muito doente por uma irmã, que a levou para São Paulo. Lá foi “descoberta pela mídia” após matéria elogiosa da revista estadunidense Guitar Player. Foi escolhida como uma das 100 melhores instrumentistas do mundo, com voto de Eric Clapton. Em 2012 foi incluída na lista dos 30 maiores músicos brasileiros de guitarra e violão − categoria raízes brasileiras − da revista Rolling Stone Brasil.

Essa “dama da viola” toca desde os nove anos, nunca foi à escola e faz as próprias paletas de chifre de boi. Nas sextas-feiras santas, debaixo de uma figueira antes do nascer do sol, leva dentro da viola um guizo de cascavel para dar sorte. Autodidata em violão e viola, sem saber ler nem escrever uma nota sequer, sempre levou a música muito a sério. Fico pensando onde teria chegado se sua infância tivesse sido outra…

Sua primeira apresentação em teatro foi aos 67 anos, gravou alguns discos em seguida. Sua música é reconhecida pelos nativos e amantes da boa música de viola. Faleceu aos 81 anos, vítima de pneumonia crônica.

Discografia
1994: ‘Helena Meirelles’
1996: ‘Flor de Guavira’
1997: ‘Raiz Pantaneira’
2002: ‘Ao Vivo’ (também conhecido como ‘De Volta ao Pantanal’)

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Michel Petrucciani: é preciso ser forte para fazer com que o piano se sinta pequeno

Por Claudio Camillo

Michel Petrucciani nasceu em 28 de dezembro de 1962, em Orange, no sul da França. Cresceu em Montelimar, em uma família de músicos. O pai, Antoine Petrucciani, e o irmão mais velho eram guitarristas e o mais novo tocava contrabaixo.

Nasceu deficiente físico, em decorrência de uma forma grave de osteogênese imperfeita − a “doença dos ossos de vidro” ou “ossos de cristal”.

Começou tocando bateria aos quatro anos, mas se apaixonou pelo piano ao ver Duke Ellington pela primeira vez num especial sobre ele na televisão. Pediu aos pais um piano igual ao de Ellington, porém ganhou um de brinquedo. Em um ataque de raiva destruiu o presente. Finalmente ganhou um velho piano abandonado em uma antiga base militar. Nele, Petrucciani se identificou com o grande músico que viria a ser.

Aos sete anos, já se apresentava em clubes imitando o estilo de Bill Evans, Art Tatum, Keith Jarret, Oscar Peterson e outros, o que atraiu a atenção dos amantes do jazz. Deixou o sul da França indo para Paris onde gravou, em 1978, seus primeiros discos, ‘Flash’ e ‘DarnThat Dream’, com seus irmãos Philippe (guitarra) e Louis (contrabaixo). Foram dois grandes sucessos! No segundo, gravou pela primeira vez uma música brasileira, ‘Corcovado’, de Tom Jobim, o início de uma paixão.

Tinha que ser carregado até o palco e seu piano era especial para permitir que alcançasse os pedais. Se tornou um dos maiores pianistas do jazz contemporâneo, com um estilo único e, ao mesmo, tempo intimista, lírico e impetuoso. Petrucciani foi um dos raros músicos europeus de jazz que fez sucesso nos Estados Unidos e no Canadá. Esteve uma vez no Brasil, em 1987, se apresentou no Free Jazz.

Tocava como estivesse em transe. Dizia ele: “é preciso ser forte para fazer com que o piano se sinta pequeno”.

A música brasileira foi parte importante em sua arte. Através da pianista Tania Maria, mulher de Eric Kressmann, seu empresário, conheceu Milton Nascimento, Laurindo de Almeida, João Gilberto, Johnny Alf e Hermeto Pascoal. Compôs ‘Regina’ em homenagem a Elis, por quem ficou encantado assim que a ouviu cantar.

Petrucciani achava que o jazz atual vivia uma crise de identidade e que ainda não havia encontrado totalmente seu espaço, mas amava o bebop, que considerava um estilo clássico e que era como uma obra de arte. Seu sonho era criar uma escola internacional de jazz na França, mas infelizmente não foi possível. Morreu aos 36 anos, em 6 de janeiro de 1999, no hospital Beth Israel, de Nova Iorque, vitima de uma infecção pulmonar fulminante.

Vai aí um link para os amantes da boa música:
https://www.youtube.com/watch?v=h5Xv95khsUY&t=4s

Foto: Reprodução da internet