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“Os brasileiros perderam o medo da Covid-19’

 

Por Claudia Mastrange

Enquanto o Brasil enfrenta, em várias regiões do país, um aumento de casos de contaminação e morte por Covid-19 e a vacina ainda esta longe de ser uma realidade no país, o coronavírus já se apresenta em uma nova variante, gerando um alerta mundial. O virologista Raphael Rangel, delegado do conselho de Biomedicina no Rio de Janeiro e coordenador do curso de Biomedicina do Instituto Brasileiro de Medicina e Reabilitação – IBMR, em entrevista exclusiva ao Diário do Rio, fala sobre a pandemia, seu enfrentamento no Brasil e essa variante, 70% mais contagiosa do coronavírus. Ela já circula na Europa e nos Estados Unidos e, segundo Raphael, já pode ter chegado ao Brasil.

DIÁRIO DO RIO – Como vê a evolução da pandemia no mundo?
RAPHAEL RANGEL – “A pandemia, de uma forma geral, se desenvolveu muito rápido. Países como Estados Unidos e Brasil, por exemplo, demoraram muito para tomarem medidas mais restritivas e tiveram seus governantes negligenciando a Covid-19, com palavras como “É somente um resfriadinho”, “Uma gripezinha” e que logo ia passar. Com isso, acabou enfraquecendo muito o discurso dos cientistas e dos médicos com relação ao coronavírus. As pessoas passaram a não se proteger contra a doença e o resultado disso a gente percebe no número de pessoas infectadas e na infeliz marca de 190 mil mortos”.

DIÁRIO DO RIO – Fale sobre essa variante do vírus. Verdade que é 70% mais contagioso?
No que isso é perigoso para o enfrentamento a pandemia?
RAPHAEL RANGEL – É importante destacar que não é incomum os vírus sofrerem mutações, eles sofrem isso a todo instante. O que nos preocupa nessa variante é que a mutação que ocorreu nela codifica uma região importante do vírus que ele utiliza para entrar na célula hospedeira. Então essa mutação pode deixar o vírus 70% mais contagioso. Não que necessariamente isso já esteja acontecendo, mas ele tem poder para fazer isso.

DIÁRIO DO RIO – Essa variante deve chegar ao Brasil?
RAPHAEL RANGEL – Essa variante já pode estar sim no Brasil, precisamos intensificar o que chamamos de vigilância genômica, que é realizar o sequenciamento do RNA viral dos coronavírus que nós temos aqui no Brasil, identificar para saber se ela já está aqui. Mas, se não tiver, ela pode chegar sem sombra de dúvida.

DIÁRIO DO RIO – O Brasil vive ou uma segunda onda de contágio? Ou não saímos mesmo na primeira ?
RAPHAEL RANGEL – O Brasil vive uma segunda onda, obviamente em regiões específicas como Rio de Janeiro e São Paulo. Uma segunda onda é caracterizada quando tivemos a primeira onda de números de casos e internações, que decaíram. E , de meados de outubro para cá, o número de infectados, internações e mortes também aumentaram, isso caracteriza sim uma segunda onda.

DIÁRIO DO RIO – A que se deve esse aumento significativo na taxa de contágio e mortes?
RAPHAEL RANGEL – “Esse aumento de número de casos vai de encontro com duas questões. A primeira é que os brasileiros perderam o medo da Covid-19, muitas pessoas sem máscara, não praticando o distanciamento social, principalmente os jovens que estão indo para a balada e bares lotados. E a outra questão é que os governantes fizeram medidas de flexibilização e não obedeceram o tempo mínimo para fazer, exemplo do Rio de Janeiro que não esperou de duas em duas semanas que é cada fase de flexibilização. Fizeram até mesmo duas fases em uma semana só. Então essa reabertura que deveria ser gradual. Acontecendo de forma equivocada acaba ajudando também na dispersão da doença.

“O Brasil está
bem longe de conseguir controlar
a pandemia”

DIÁRIO DO RIO – O que achou do Plano Nacional de Vacinação?
RAPHAEL RANGEL – “O plano nacional de vacinação obedece a um script, não é nada surreal. O Brasil, até o momento, não fez nenhum acordo significativo a não ser com a AstraZeneca, e comprou 100 milhões de doses aqui para o nosso país. Mas percebemos que na fila das melhores vacinas, como por exemplo, a da Pfizer, que os Estados Unidos está usando, nem demonstramos interesse de compra. Caso o Brasil vier a demonstrar interesse agora, só conseguiremos algumas doses no final de 2021. Enquanto já passamos da marca de 3 milhões de pessoas vacinadas do mundo, o Brasil segue sem vacina e sem um plano de vacinação fidedigno. Vizinhos como a Argentina já estão vacinando”.

DIÁRIO O RIO – Quando acredita que conseguiremos controlar? Podemos chegar a que número de mortos?
RAPHAEL RANGEL – “Eu diria que o Brasil está bem longe de conseguir controlar a pandemia. Temos uma incapacidade de gerenciá-la no nosso país, muito por conta dos nossos governantes. Estamos passando por uma das piores pandemias que o mundo já viveu, com um ministro da saúde que nem da área da saúde é. Ele é formado em logística. E mesmo assim, tivemos diversos testes estragando, passando da validade em um galpão em São Paulo. Então o Brasil está bem longe de vencer ou controlar a pandemia, essa situação segue no descontrole. Exemplo disso é que todos querem testar vacinas por aqui”.

DIÁRIO O RIO – E quanto ao recontágio? Há como prevenir? Ele acomete algum grupo em especial?
RAPHAEL RANGEL – A reinfecção é possível e tem acontecido. Aas pessoas têm uma falsa ideia de que, uma vez que a pessoa tem a doença, ela nunca mais terá. Isso não é uma verdade. As pessoas que tiveram Covid podem ter novamente, porque os anticorpos, após cinco, seis meses acabam zerando, podendo haver uma nova reinfecção com a doença, e sendo ela suscetível a qualquer um.

Foto: Divulgação

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Entrevista com Sabrina Campos, candidata a vereadora do Rio pelo PSL

Sabrina Campos é Advogada Pós-Graduada, cofundadora de Campos e Bastos Advogados, também Árbitra (Juíza Arbitral em Câmara Privada), especialista em Mediação e Conciliação, Comendadora recebedora da Medalha de Honra ao Mérito Juscelino Kubitscheck, escritora premiada pelo TJERJ e voluntária do Projeto Justiceiras.

 

Por que o desejo de vir candidata a vereadora?

Esclareço: não há desejo, há urgência. A motivação nasceu da necessidade em atender à cidade e população do Rio de Janeiro no que há muito tem sido objeto de descaso, desprezo, por parte do Poder Público. Ninguém aguenta mais a situação atual, especialmente a corrupção. Amo a minha cidade natal, cansei de ver pessoas partindo, abandonando sonhos, planos, família, em busca de um lugar melhor para viver. Quero resgatar o Rio de Janeiro, recuperar a cidade da destruição. Todos nós precisamos nos unir em uma só voz para conquistarmos melhor qualidade de vida e voltarmos a admirar a cidade referência no Brasil e no exterior, como o que um dia foi a “cidade maravilhosa”. Que minha voz, há tantos anos sufocada, seja ouvida, e a voz de todos nós ecoe na casa do Povo. Juntos, todos nós insatisfeitos com a velha política e a corrupção no Rio de Janeiro, sejamos UMA SÓ VOZ!

Dentre suas propostas, qual delas você acha a mais importante?

Minhas propostas são muitas, tenho ouvido pessoas de diferentes atuações, formações, escolaridade, classes sociais, regiões, idades, núcleos familiares, suas maiores dificuldades e pleitos. Além de advogada, árbitra (também atuo na função de juíza arbitral em Câmara Privada), sempre trabalhei como voluntária. Há cerca de mais de vinte cinco anos atuo assistindo também vítimas de violência, os mais vulneráveis, como crianças e adolescentes, mulheres, idosos e pessoas com deficiência. Minha proposta principal se dá acerca da Educação. Pretendo que o ensino se dê por período integral, que à criança e ao adolescente haja total atenção e incentivo, a prepará-los com ampla oportunidade de aulas de reforço escolar. Investir no melhor desenvolvimento físico e psicoemocional dos jovens, através de atividades desportivas, artísticas, culturais, nas escolas, reforçar a disciplina, estimular a autoestima. Cursos capacitantes, técnico-formais, preparar o jovem para o mercado de trabalho, independente de decidir cursar faculdade. Parcerias com a iniciativa privada, orientações de direitos trabalhistas, incentivo ao menor aprendiz, feiras, palestras. Manter crianças e adolescentes fora das ruas, diminuir a ociosidade, impedir a evasão escolar.

Se eleita for, qual será a primeira ação?

Se eleita, pela vontade de Deus, agirei para que os Projetos de Lei que já tenho elaborado, com as justificativas que desenvolvi, após muito estudo, pesquisa e trabalho, sejam propostos e sigam à tramitação, em defesa da garantia aos direitos mais básicos do cidadão, como os que citei, também fomentar o empreendedorismo, gerar mais vagas de emprego,  aquecer a economia após essa pandemia, valorizar o turismo, em combate ao tráfico de pessoas, prostituição e exploração sexual infantil.

A população do Rio de Janeiro pode esperar, e terá, uma vereança acessível, canais de comunicação com o cidadão, que é um parceiro nesta empreitada, pois dependo de sua perspectiva do que ocorre ao seu redor, do que a ele e sua família se faz mais necessário, para consiguir atender a coletividade. Que o cidadão do Rio de Janeiro caminhe lado a lado comigo, lutemos juntos por uma cidade livre da violência, sejamos um só!

Qual o principal problema do município hoje?

Acredito que nosso maior problema hoje seja a violência. A pandemia do COVID-19 evidenciou a falta de estrutura e as falhas graves de administrações anteriores. O isolamento resultou na perda do trabalho, dos negócios e investimentos. Portas fecharam, vagas sumiram, imóveis perderam valor, a população de rua cresceu. O estresse e o desgaste emocional afetaram as famílias, a violência doméstica e sexual, especialmente contra mulheres, crianças e adolescentes, cresceu terrivelmente, assim como os suicídios. Como voluntária a assistir a estas vítimas, venho experimentando a relação entre a perda do poder econômico com o aumento da violência. A ociosidade dos jovens, longe das escolas durante a pandemia, expostos às ruas, permite que fiquem à mercê do “recrutamento” pelo tráfico de drogas, a corrompê-los. O vício em drogas também cresceu, muitas “cracolândias” se formam. É preciso acolhimento de imediato, e mais necessário capacitar, treinar, educar e formar para que se tenha plena condição de emprego. Incentivar o empreendedorismo para criar vagas, restabelecer a economia gerando renda e poder de compra.

Sobre o combate ao tráfico de drogas, considero gravíssimo, crianças e adolescentes cada vez mais jovens têm sido corrompidos por criminosos a formar um exército de guerrilheiros, que são convencidos de que suas vidas não têm valor, e, seguem dispostos a morrer sem apreço a nada. Neles mantenho o meu foco, por isso tantos projetos para a Educação – busco proteger a nossa infância e juventude de quem os sacrificam para impor o terror. Quero essas crianças e adolescentes nas escolas, estimuladas a serem o que quiserem, desejarem, sonharem. Incentivadas ao trabalho digno, honesto, que os valores familiares da decência, da honra, sejam cultivados, a desenvolverem a boa-fé, moral e ética. Enquanto a amoralidade psicopática for o padrão de conduta na sociedade, em que tudo é justificável, as piores atrocidades encontram defensores, jamais haverá paz. Há o certo e há o errado. O moral e o imoral. Tolerar a inversão disto é contribuir para a ausência de limites, que tem feito do Rio de Janeiro um inferno onde reina a impunidade.

O que o você gostaria de acrescentar que não foi perguntado

aqui?

Gostaria de acrescentar que o direito ao voto é um dos mais importantes aos cidadãos. Quem vota mediante favores pessoais é tão corrupto quanto o político criminoso. Tal direito foi conquistado com o sangue de muitos que lutaram por este privilégio. Busque conhecer os candidatos, vote em quem se identifica. Eu lhe convido a não reeleger pessoas que não contribuíram para a cidade, mas dar chance a quem, como eu, sempre trabalhou e se doou ao seu próximo e ao Rio. Vamos juntos? Uma só voz!

 

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Fabiano Barcellos: médico que virou escritor e ensina empreendedorismo online

Há sete anos, o médico cardiologista, Fabiano Barcellos não faz mais da medicina a sua principal fonte de renda. Desde 2016, ele só realiza atendimentos populares, em que os pacientes pagam um valor que é suficiente para que honre o aluguel do consultório.

Barcellos queria ter mais tempo livre e começou a trabalhar com marketing de relacionamento e vendas online. Em dezembro de 2019, lançou o livro “Coragem para vencer”, com o objetivo de ajudar pessoas a transformarem suas vidas. Na semana do lançamento, o livro ficou em quarto lugar entre os dez mais vendidos sobre autoajuda.

Desde o início da pandemia, Fabiano Barcellos está fazendo lives em seu instagram (@fabianobarcellos) sobre temas variados e com especialistas e artistas, como as atrizes Mariana Molina e Susana Alves, o ator Raul Gazolla, a ex-miss Brasil, Débora Lyra, a apresentadora Dani Monteiro, a ginasta Danielle Hypólito, o autor de best-seller, palestrante e empresário Edgar Ueda, a coach de emagrecimento, Carol Ferrera, entre outros.

“A ideia de fazer as lives era para ajudar as pessoas nesse momento difícil que vivemos: depressão, redução de salário, conviver mais tempo com os familiares. Então, tento ajudar a se manterem ativo e aproveitar o tempo livre, entre outros temas. Acabaram surgindo convites para palestras que serão realizadas quando tudo se normalizar”, diz Fabiano.

Para o empreendedor e autor, é preciso pensar fora da caixinha. Fabiano dá dicas para os que querem Empreender não se abaterem com qualquer desânimo e fraqueza e encontrarem forças para seguir em frente com os seus planos:

1-    Para enfrentar o que estamos vivendo, precisa de muita coragem, mas não só pelo confinamento e dúvidas, mas também para o autoconhecimento. Ter tempo para si, se conhecer melhor, escutar mais o próprio eu não sou fácil para muitos. Porém, renovador e fundamental para a próxima fase. Nesse momento precisamos dar mais atenção à comunicação interna e isso de simples não tem nada, precisa de muita coragem.

2 – Todo mundo tem problemas e passa por fases difíceis. Os dias complicados fazem parte da vida e felizmente são eles que nos permitem mudar, aprender e evoluir. Não adianta esperar os problemas diminuírem, a sua vida continuará sendo a mesma. Pare de esperar as coisas mudarem para você mudar em si aquilo que precisa!

3 – Se a sua intenção é fazer algo novo e fora do comum e do esperado pelas pessoas, esteja preparado para ouvir críticas bem e mal-intencionadas para que possa seguir adiante com seus sonhos.

4 – Se você quer mudar e sonha com um futuro diferente, precisa deixar as crenças negativas de lado e acreditar no seu potencial.

5- As coisas só são difíceis até você torná-las fáceis!

6- Se não fizer nada por você, sua vida continuará sendo a mesma e seus sonhos jamais sairão do papel. Se deseja ser diferente no futuro, comece a traçar a sua mudança hoje, pois só assim você conseguirá alcançar os seus objetivos. Se decidiu muda a sua vida, faça hoje!

7- Saia da sua zona de conforto e dê de cara com a sorte que você acredita que perdeu.

8 – Errar é uma porta de entrada para viver o novo e para não cometer o mesmo erro outra vez. Se você está errando muito, é sinal que você está aprendendo mais do que imagina. Dê uma chance a si mesmo e absorva todo esse aprendizado.

9 – Não seja um obeso mental. Não pense demais e nem aja de menos. Procure um equilíbrio, alinhe seus planos aos seus objetivos. Analisar e pensar é importante, mas não agir é retroceder.

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Quadrinista Estevão Ribeiro fala sobre sua carreira, desafios e racismo

Por Sandro Barros

Nascido em 1979, Estevão Ribeiro é escritor, roteirista e autor de histórias em quadrinhos. Capixaba de berço, mora desde 2008 em Niterói, cidade vizinha ao Rio de Janeiro. Ele começou sua carreira artística aos 20 anos de idade e coleciona em sua trajetória muitos personagens, tirinhas e livros.

Em 2011, ganhou o 23º Troféu HQ Mix na categoria Melhor Publicação Infantojuvenil pelo livro ‘Pequenos Heróis’. Em 2014, pela Desiderata, publicou a graphic novel ‘Da Terra à Lua’, inspirado no romance de mesmo nome de Júlio Verne com elementos do romance ‘Os Primeiros Homens na Lua’, de H. G. Wells, e do filme ‘Viagem à Lua’, de Georges Méliès.

O trabalho do Estevão pode ser visto nas páginas do Diário Rio. Primeiro com as tirinhas ‘Os Passarinhos’ e, mas recentemente, as da ‘Rê Tinta’. Conheça mais sobre esse talentoso artista nessa entrevista exclusiva.

Como você se viu desenhando?
Criança, eu sempre lia quadrinhos, da Turma da Mônica, da Disney e de super-heróis, muitos deles ‘herdados’ dos meus irmãos. E desde os sete anos tinha uma predilação para criar histórias, só que eu era muito bom em escrever ao invés de ilustrar. Desenhar quadrinhos mesmo foi mais pra frente, aos vinte e poucos anos. Até então eu escrevia mais e copiava desenhos. Mas eu comecei bem cedo mesmo, graças ao estímulo da leitura de quadrinhos.

E o seu primeiro quadrinho publicado?
Ainda moleque lá no Espírito Santo, eu procurava muitas gráficas para imprimir os materiais, achando que elas eram editoras, iguais às grandes editoras brasileiras, e nunca conseguia publicar por lá. Já que desde cedo eu tinha vontade de produzir quadrinhos, fui reunindo material e amadurecendo a ideia até os 20 anos, quando publiquei o meu primeiro trabalho pelo jornal Notícia Agora. Foi uma série de quadrinhos que saiam em uma página diária. Ao todo foram cerca de 360 páginas publicadas em um ano e pouco. Isso me deu mais gás para produzir outras coisas também.

E a sua primeira edição própria, como foi?
Passei, dos meus 14 anos de idade, quando comecei a querer fazer alguma coisa, até os 20 estudando, indo às gráficas, conhecendo o processo gráfico e tipos de papel, qualidade de coisas para, enfim, conseguir publicar. Em 2001 eu lancei um compilado de histórias do personagem Tristão, que haviam saído no jornal, pela Editora Escala Graphic Talents. E depois disso eu comecei a publicar outros materiais, seja por conta, até mesmo por conhecer o processo gráfico, quanto por demanda de encomendas.

Como você usa as mídias digitais para divulgar sua arte?

Olha, eu não sou o cara mais eficaz nisso, pois não tenho a disciplina de quem produz diariamente e consegue deixar seu trabalho em evidência. Como eu faço muitas coisas ao mesmo tempo, acaba que não tenho esse foco. Hoje, por exemplo, administro o meu perfil pessoal, o perfil da personagem Rê Tinta, que é o que mais me dá mais retorno em termos de visibilidade, e as outras redes sociais eu tento administrar de uma forma que elas não ‘morram’. Mas o trabalho mais específico nessa área é o da Rê Tinta, que é o meu mais recente, de dois anos. Imagina só: eu tenho 41 anos e somente há dois anos consegui ter uma presença marcante na internet com conteúdo. De resto, eu tenho ‘Os Passarinhos’, que foi um material que fez muito sucesso na mídia digital, citado por Neil Gaiman, Paulo Coelho e outros escritores, mas são materiais que fazem muito mais sucesso na mídia impressa do que na virtual.

Fale um pouco mais sobre a Rê Tinta…
Ela vem de um processo de procura fazia muito tempo, buscando algo em que pudesse trabalhar a representatividade. E isso aconteceu quando eu estava no Festival Internacional de Quadrinho [FIC] de Belo Horizonte, em junho de 2018. Tinham muitos negros no espaço e colocaram, coincidentemente, eu e mais dois artistas pretos em mesas próximas umas das outras. No evento com cerca de 180 mesas, tinham apenas três com negros em sequência, o que era uma coisa muito rara, já que não éramos 10% do total de artistas. Então as pessoas vinham até nós três perguntando o que tínhamos de material ‘pra preto‘. E eu tinha muito material, mas era, digamos, universal, onde tinham negros, mas não tinham apenas negros. Quando sai do FIC fiquei com isso na cabeça e Rê Tinta veio como um estalo, assim. Um mês depois ela estava sendo publicada no Instagram.

Tivemos avanços na luta contra o racismo?
O que evoluiu nessa questão? É que as pessoas estão denunciando! Antigamente se tinha muito medo de perder o emprego ou espaço em seu grupo por denunciar um ato de racismo. O que o Brasil precisa entender ainda hoje é que nosso povo é basicamente racista, foi educado para ser racista. E quando você diz que a pessoa está sendo racista, ela leva isso como se fosse uma ofensa muito grave ao invés de se questionar: ‘estou sendo racista?’, ‘onde?’, ‘como?’. E isso faz toda a diferença e é necessário que seja feito.

Mas isso não basta, certo?
Sempre que você tem alguns avanços, como a questão de cotas, passado um tempo a indignação de pessoas que acham que estão perdendo o espaço conquistado, graças aos seus privilégios, vem de uma forma muito mais brutal. Estamos vendo um aumento de assassinatos de negros porque alguns acham que estão perdendo terreno. Da mesma forma em que estamos denunciando os atos racistas, as pessoas estão perdendo o ‘medo’ de serem racistas. Ninguém nunca foi condenado por racismo no Brasil, mesmo sendo um crime inafiançável, pois sempre foi considerado como injúria racial. Então, a gente só vai conseguir ter algum tipo de resultado quando alguém, de verdade, for presa por racismo e cumprir essa pena.

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Entrevistas

Youtuber Brancoala oferece dicas espertas para aprender novos idiomas

Com mais de 7 milhões de seguidores, Branco, ou “Brancoala”, possui um canal com conteúdo voltado para a família. Atualmente, ele mora nos Estados Unidos com a esposa e os dois filhos. É um papai style, cantor, produtor musical, designer gráfico, youtuber e escritor.

Também passa a maior parte do tempo gravando, editando vídeos, bebendo chimarrão, tocando violão e brincando de “Hot Wheels”. Branco também lançou o livro “Brancoala e Familia”, explicando como é possível reconecta-se com seu propósito de vida aprendendo a alinhar com seus objetivos e sonhos.

Além do conteúdo sobre autoconhecimento, há uma parte dedicada a história da família, como eles começaram a vida em outro país do zero, qual a melhor hora para ter um filho e como os pais de primeira viagem podem lidar com as próprias ansiedades e dúvidas.

O produtor de conteúdo já conheceu diversos países e procura incentivar os filhos pequenos para que aprendam novas línguas.

Dominar um novo idioma pode parecer uma tarefa muito complicada, mas na verdade há formas de facilitar o estudo de uma nova língua. Além dos cursos tradicionais que podem ser feitos online ou presencialmente, existem algumas dicas que podem colaborar com esse processo, melhorando o entendimento de conteúdo falado e escrito, além da conversação.

Brancoala, youtuber e produtor de conteúdo há mais de dez anos, já morou em diferentes países do mundo junto com a sua família e por esse motivo precisou aprender e se adaptar a diversos idiomas. “O inglês sempre foi primordial para toda a família, por isso sempre incentivamos a melhor forma de aprender em casa, além das aulas, é claro. Com isso, eles se acostumam mais facilmente e desenvolvem o aprendizado de forma mais eficiente”.

 

Foto: Reprodiução

Confira as dicas de Branco para aprender novos idiomas:

É importante ler no idioma que quer aprender?

Vale a leitura em qualquer idioma e de qualquer livro que seja, dos mais simples aos mais complexos. Inicialmente, livros infantis podem ajudar a colocar o objetivo em prática, até mesmo quadrinhos valem. Com o passar do tempo, podem ser adicionados romances e livros técnicos à rotina de leitura.

Acompanhar letras de músicas funciona?

Ouvir músicas em inglês ou qualquer outra língua é ótimo, pois ajuda a entender as palavras de forma plena: além do significado, se aprende também a pronúncia.

Sobre séries e filmes legendados?

Qualquer um desses é uma boa opção, especialmente se já existe alguma familiaridade com o que está sendo assistido. Ainda assim, uma boa dica é utilizar animações, uma vez que os diálogos são mais simples.

A moda agora são os podcasts. Ouvir em inglês é bacana?

Essa modalidade de conteúdo tem crescido muito em todos os países. Para começar a aprender o inglês, por exemplo, há bons canais que podem ajudar. Além de canais mais conhecidos, como o New York Times (para quem já tem algum entendimento), há também canais brasileiros como o Inglês Nu e Cru Rádio, com episódios curtos e interessantes.

Quanto ao YouTube?

Além de diversos canais internacionais com os mais diferentes temas, há também opções focadas apenas no aprendizado de novos idiomas, sendo o inglês o mais comum.

Outra tendência são os cursos online. O que acha?

Há muitos cursos disponíveis na internet, sejam pagos ou não, com professores especializados que podem dar mais atenção a pontos de dificuldade. Além disso, uma outra vantagem dessa modalidade é que, por poder ser feito à qualquer hora, pode ser adaptado à rotina do estudante.

E os aplicativos?

Com o celular sempre disponível, é possível dedicar alguns minutos diariamente para entender melhor uma nova língua. Aplicativos de dicionários são uma boa ideia para aumentar o vocabulário. Já aplicativos como o Duolingo, que tem diversas aulas de muitos idiomas ajudam a desenvolver melhores diálogos e novas palavras também.

Para conhecer um pouco mais dessas situações engraçadas e inusitadas pelas quais todos os pais passam, acessem  https://brancoala.com/.

No Youtube, pelo https://www.youtube.com/user/brancoala, canal com mais de 7 milhões de seguidores  e instagram @brancoala, onde mais de 280 mil pessoas recebem diariamente novos conteúdos

 

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Cultura Destaque

Zabelê

Por Alessandro Monteiro

De bem com a vida e fortes influências musicais, Zabelê, é filha de dois grandes gênios da MPB, Baby do Brasil e Pepeu Gomes, formou o grupo SNZ (1997), junto com as irmãs Nãna Shara e Sarah Shiva.

O primeiro álbum do grupo foi lançado em 2000 pela Warner Music Brasil, com o single “Longe do Mundo”, uma trilha sonora do filme “O Trapalhão e a Luz Azul”. Após o fim do grupo, Zabelê foi a única que continuou na música pop, realizando turnês pelo Brasil.

Seu primeiro álbum solo foi lançando em 2015, puxado pela música “Nossas Noites”. Em 2020, a cantora revelou estar produzindo um novo álbum, ainda sem data de lançamento.

 

Como você entende essas relações conservadoras em relação a mulher em pleno século XX?

Acho que devemos evoluir como nação e cidadãos, não podemos repetir o erro de gerações passadas.

Temos que parar com idéias super conservadoras em relação a mulher de hoje em dia, respeitar seus direitos que devem ser iguais ao de todos.

Nascida em uma família de artistas consagrados, você e suas irmãs enveredaram para música, que em determinada época criaram o grupo SNZ não foi?

Sim, criamos o SNZ em 1999 e tivemos uma carreira linda de 10 anos juntas.

Por que acabou?

Cada uma de nós resolveu seguir o seu caminho individual na música. As meninas foram para o Gospel e eu para o secular com uma carreira na MPB.

Já pensaram na possibilidade de retorno?

Não, temos ideologias,pensamentos diferentes e respeitamos o momento de cada uma em suas carreiras.

O SNZ fez história e eu sou muito grata a tudo o que vivi e aprendi com toda nossa experiência musical juntas. Mas chegou um momento de cada uma seguir o seu vôo solo.

 

Zabelê e Baby do Brasil
(Foto: Reprodução Instagram)

Como era sua infância, livre?

Tive a sorte de ter uma infância cheia de liberdade e muita cultura a todo tempo. O fato de ter crescido rodeada de muitos artistas foi uma inspiração para toda a minha vida.

Qual a sua visão da cultura atual?

Vejo a internet como nosso melhor caminho cultural, os artistas que antes não tinham voz, hoje em dia podem divulgar os seus trabalhos independentes e mostrar a sua arte.

Precisamos cada vez mais abrir esse espaço, e dar a atenção necessária para que a nossa cultura seja mais forte e sempre presente no nosso País.

E com suas irmãs? A relação é bacana?

Sim, temos uma relação de irmãs amorosas que se amam e querem o melhor uma para a outra.

O importante é sermos felizes com o que fazemos nessa vida!

 

Como é a sua percepção de vida hoje?

Para mim, temos que nos comprometer com a nossa felicidade e com o nosso crescimento interno, para sermos seres humanos evoluídos, doando amor e demostrando compaixão um com os outros.

Não estamos sozinhos nessa terra. Quanto mais percebemos isso mais damos valor ao próximo.

 

Foto: Reprodução Instagram

Um sonho?

No momento paz e amor no mundo! E que a gente consiga logo superar essa epidemia do Covid-19 e que a ciência consiga achar uma saída, vamos ter fé!

Sua mãe tem uma carreira sólida. Existe uma troca entre vocês duas em relação aos projetos profissionais? E na vida?

Somos muito amigas, trocamos de uma forma sadia as nossas experiências tanto na vida quanto na carreira.

Estou sempre aprendendo com ela e ela comigo! Oh sorte!

 

 

Seu primeiro disco solo foi lançado em 2015, o que marcou?

Foi um disco muito importante para a minha carreira, com ele consegui mostrar um pouco mais do meu lado Brasileiro e das minhas influências musicais como o afoxé e um pouco do samba.

Um disco Brasileiro mais alternativo, tenho muito orgulho de ter feito. Acho que nós artistas temos que ter a liberdade de poder explorar todos os nossos lados musicais. Eu vim de uma família Pop Brasileira que sempre explorou do Rock Roll ao Samba.

 

Apesar do ano ter começado cheio de atribulações, como você faz para manter sua mente equilibrada?

Sou uma pessoa que me foco para manter uma atitude mental constantemente positiva, acho que temos que perceber que por traz de toda essa dificuldade que estamos passando, existe um objetivo de aprendizado para todos nós. Se a gente conseguir ver isso tudo como uma oportunidade de crescimento espiritual e mental, passaremos esse tempo com mais paz e alcançaremos o objetivo maior!

Vamos manter a mente e o coração em paz, ter fé e acreditar no amanhã!

Tem alguma religião? Acredita em Deus?

Eu não sigo nenhuma religião, mas acredito em Deus, acredito na energia da vida e da natureza. Acredito que Deus está ali e tudo é movido por ele.

Além de seus pais, quais artistas você tem referência de boa música?

Ah… são muitas as referências! Costumo dizer que vão de Novos Baianos a Michael Jackson para citar algumas.

 

Uma música?

Acabou Chorare/ Novos Baianos

Se tivesse o poder de transformar as coisas, o que faria agora?

Ajudaria aos mais necessitados e acabaria com esse vírus!

Soube que está em estúdio produzindo novidades. Pode contar?

Surpresa! Estamos preparando coisas lindas para vocês! Em breve vocês saberão as novidades!

O que te inspira?

A arte, a vida, a música, a dança.

Música é?

Vida!

Zabelê por Zabelê?

Complicado eu me definir..rsrs

Mas acho que sou uma pessoa positiva, curiosa e que esta sempre procurando evoluir!

 

Foto de Capa: Denny Silva

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Cultura Entrevistas

Stênio Garcia: ‘eu nunca vou parar’

Por Alessandro Monteiro

Nascido em 1932, Stênio Garcia Faro é formado pelo Conservatório Nacional de Teatro, ingressando em 1960 no elenco da última fase do Teatro Brasileiro de Comédia, intercalando suas atuações com Cacilda Becker. Década em que já era um ator premiado em montagens inovadoras do teatro brasileiro.

Na carreira, mais de 50 personagens, 20 novelas, minisséries, 23 filmes. Stênio é reconhecido como patrimônio da televisão brasileira. Atualmente casado com a também atriz Marilene Saade, o ator celebra mais de 60 anos de carreira.

Aos 87 anos, qual o segredo para tanta vitalidade?
Tenho uma rotina diária sempre ativa, exercitando o corpo e mente. Cuido rigorosamente da minha alimentação, não fumo, não bebo nada alcoólico. Também pratico várias atividades físicas como yoga, pilotes, musculação funcional e esteira cardiorrespiratória para continuar mantendo um coração e o pulmão bom. A minha memória é treinada diariamente, seja lendo textos, falando monólogos, por exemplo. Talvez seja um hábito desde o início da carreira, feito para mim mesmo. Hoje tenho a Mari [Marilene Saade], que além de excelente esposa e companheira, é minha ouvinte e apreciadora da minha arte, das poesias que leio e declamo. A roda de amigos, a minha casa. Memória é treino: quanto mais treinar, melhor fica.

Num currículo que somam mais de 60 obras, o que marcou?
Interpretar o Aleijadinho no Caso Especial ‘O Poema Barroco’, na TV Globo, em 1977. Um marco na minha vida. Também o Tio Alli na novela ‘O Clone’, de Glória Perez, e muitos outros.

Na cidade de Mimoso do Sul, no interior do Espírito Santo, onde nasceu, existe o Teatro Stênio Garcia, que vem sofrendo pela falta de manutenção e abandono. Existe algum tipo de relação sua e a Secretaria de Cultura de lá para que mais um espaço de cultura não seja fechado?
É muito triste ver mais um espaço de cultura nessas condições, principalmente na minha cidade. A angústia é muito grande, quando vejo espaços assim, quase fechando, sofro bastante. Dias atrás, estava pensando em realizar esse contato, na tentativa de saber como andam as coisas, a conservação e tudo mais. Os meus troféus estão todos lá, no teatro. Inclusive penso em buscá-los e guardar aqui em casa. Durante a carreira ganhei prêmios importantes e conquistados realmente com o suor do trabalho. Um país não vive sem arte, educação e cultura, porque as três coisas são interligadas. Logo, ver um país decaindo, cinemas sendo vendidos e teatros virando templos para nós, que vivemos de arte, não é fácil!

A sua qualidade de vida está diretamente ligada à natureza?
Nós somos a própria natureza. Eu acho que essa qualidade de vida que as pessoas dizem que eu tenho é, de fato, um olhar diferente para a vida. Vivemos tempos de muita poluição, desmatamento, oceanos e mares cheios de lixo. Também existe a responsabilidade de todos nós em colaborar, do poder público, mas a cada dia a situação tende a evoluir infelizmente, pela falta de conscientização e amor respeito à vida. Eu moro num lugar em que planto árvores, piso na grama, medito e me conecto com o melhor que a gente tem, o que é possível. Sou uma pessoa que luto em prol da natureza. Já tirei lixo de rios, quando morava em Xerém e continuarei lutando e atuante em causas assim.

Atuar é um combustível pra você?
Atuar e trabalhar é a minha vida. Só paro quando não estiver mais aqui.

Uma saudade?
Sim, da minha cidade Mimoso, do Sule, do Doutor Roberto… um ser humano incrível a quem tenho eterna gratidão.

No dia 20 de março, a escritora Glória Perez emitiu um comunicado em que estaria escalando você para sua próxima novela, em 2021. Logo, é possível que seja mantida a sua estabilidade na emissora ou de fato o contrato mudará para contratação somente por obras?
Eu primeiro fiz o vídeo para falar com todos os autores e diretores. Entendo ser a única saída, já que estou em quarentena. Olhando o celular vi que tinha o contato da Glória, do Jayme, de outros amigos. Para minha surpresa, ao passar um WhatsApp para Gloria, imediatamente ela respondeu que eu já seria um dos integrantes do elenco da próxima novela dela na Globo. Não foi um comunicado, apenas uma conversa nossa. Daí perguntei se poderia falar na Globo e prontamente ela respondeu sim. Televisão eu não trabalho por obra, afinal,70 anos de carreira é estrada, né? Essa nova modalidade é para quem está começando, jovens atores, não para nós já consagrados na profissão. Cinema e teatro eu faço, converso e sempre chegamos num acordo.

Cinema, teatro ou TV?
Ah, eu comecei no teatro. Ator é palco, atuação, seja no teatro, cinema, televisão e até mesmo no circo.

Após cinco casamentos, qual a lição aprendida?
Realmente eu tive quatro casamentos anteriores. Acho que toda relação é importante para você crescer. Seja boa, triste, não importa. Meu quinto casamento eu posso dizer que farei 22 anos juntos, bem-sucedidos.

Stênio, você como referência para muitos aspirantes à carreira e aplaudido por tantos colegas da classe artística, é sempre elogiado pelo seu jeito simples e acessível. É o seu segredo do sucesso para tantos anos?
Ah, eu não sei, Alessandro. Realmente sou uma pessoa simples, humilde e acho que fazer o trabalho deve ser realizado com excelência em todas as áreas. Não vaidade em relação a isso. Tenho minha consciência como ser humano.

Ainda tem sonhos? O que falta?
Claro, tenho muitos sonhos profissionais e de vida ainda. Desejo viajar muito com minha mulher, fazer muitas coisas com ela. Quem sabe eu chego aos 100 anos [risos]. Ninguém vive sem sonhos. Claro, é importante ter vitalidade, saúde e sanidade mental. Eu trabalho em casa para isso e acredito que se você mantém uma mente trabalhando, vida saudável e paz de espírito, é possível chegar nesta idade lúcido, com boa memória, em plenitude.

 

Podemos te esperar nos palcos?
Claro! Não somente nos palcos, mas nas ruas, no supermercado, na vida. Essa pandemia vai passar. É uma forma de aprendizado para todos nós, seres humanos. Os projetos vão seguir. Tenho muitas coisas ainda para realizar, muitas! Atuar é a minha vida!

Durante a entrevista, você foi comunicado do desligamento da TV Globo. É verdade?
Sim, para minha surpresa. Eu teria uma reunião agendada para o último dia 25 de março. Porém tudo foi suspenso devido à pandemia do coronavírus. Entendi que teríamos uma nova conversa, mas a coisa não foi assim. Para continuar, eu deveria estar escalado para algum trabalho agora e já entrando nas filmagens, o que jamais aconteceria, visto que tudo está suspenso. A Glória foi uma querida, eu agradeço, mas a vida segue. Não adianta falar de ilusão e não vou me calar! Vamos à luta e que aconteça o melhor, para ambas as partes.

Uma mensagem?
Nunca pare. Não é somente o idoso que para. O jovem quando para fica deprimido. Não parem de sonhar, trabalhar, realizar as boas coisas da vida, mesmo que tenham dificuldades. Li há pouco tempo que o Bill Gates não estará mais a frente da Microsoft e se dedicará a trabalhos filantrópicos. Não é genial? Ainda pretendo realizar muitos trabalhos filantrópicos também. Sonhem, sonhem muito! Materializem seus sonhos, escolhem um caminho a seguir, coloca foco e vai, sem medo de sofrer quedas. Na vida, é preciso ousar. Trabalho desde sete anos de idade e só paro quando a vida me parar.

Fotos: Reproduções

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Elza Soares ‘eu não vou sucumbir’

Por Alessandro Monteiro

Mundialmente conhecida, Elza Gomes da Conceição, prestes a completar 90 anos é reconhecida como a cantora brasileira do milênio, com mais de 30 discos gravados. Em 2019, Elza lançou ‘Planeta Fome’, cantando seu amor pelo país, denunciando também as mazelas dos tempos atuais e gritando ao mundo “eu não vou sucumbir”.

No país, mais de 500 mulheres são agredidas por hora no país, o feminicídio cresce de forma assustadora. Porém, até o momento, nenhuma cantora brasileira se posicionou tanto em relação à causa quanto Elza Soares, que através dos seus últimos trabalhos – ‘A Mulher do Fim do Mundo’ (2015) e ‘Deus é Mulher’ (2018) – deu voz a milhares de mulheres em suas canções. Hoje, sendo inspiração para muitas delas, pois através das canções é reconhecida também como porta voz da luta pelo direito das mulheres e da população negra no país.

No carnaval deste ano, Elza foi enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel, escola que cantou os sucessos e dificuldades desta brilhante mulher que nasceu no subúrbio carioca, foi forçada a casar aos 12 anos e, aos 13, já era mãe e teve uma conturbada relação de 15 com jogador Garrincha.

Vítima de violência doméstica e alvo perseguição militar na era da ditadura, Elza, além de grande exemplo na luta pelos direitos da mulher, também utiliza a canção como ato político e, sem dúvida, é a maior cantora do milênio.

A senhora concorda com a frase “é preciso ter coragem, para ser mulher nesse mundo”?
A ‘Senhora’ está no céu. Pode ser você mesmo. Ano passado eu lancei ‘Planeta Fome’, o tema está associado ao que eu acredito; Você sabia que este meu disco fui eu que pesquisei as músicas, sugeri repertório e ainda meti o dedo na produção do Rafa? [Rafael Ramos, produtor do disco]. Minha cabeça é muito louca, cara! Quando Kastrup [produtor do disco] me trouxe essa música do Douglas Germano, não pensei duas vezes, gravei na hora! Até hoje canto ‘Maria da Vila Matilde’ nos meus shows, virou um hino! Essa música é uma forma de alertar e conscientizar a mulher que ela tem que denunciar, muitas não denunciam porque moram e dormem com o inimigo e não tem para onde ir.

Quem é a maior influência na sua vida?
Meu pai! Sempre foi meu pai, Seu Avelino Gomes, um grande homem! Tenho uma ligação forte com ele até hoje.

Precisou vencer algum desafio específico na carreira por ser mulher?
Muitos desafios. Mulher, negra, pobre e artista, tive que provar desde o primeiro momento que eu era capaz. Sempre fui brigona, sempre lutei pelos meus negros, sabia que meu nome na gravadora era Navio Negreiro? Porque todos os compositores negros sabiam que eu gravava as músicas de todos eles. Deixa eu te contar: já caminhamos bastante, tivemos vitórias, mas tem muito que lutar; Todo dia temos que levantar e lutar, não olhar para trás, sempre seguindo em frente. Meu sonho é fazer uma grande revolução feminina, todas juntas, unidas, a mulher tem a obrigação de ajudar a outra. Temos que acabar com esse negócio de que mulher não é amiga de mulher. Temos que nos unir, a mulher tem que ser amiga da outra.

E no desfile? Bateu aquela vontade de se jogar nos braços do povo?
Foi bonito, foi emocionante… Eu olho tudo isso acontecer e lembro que meu pai dizia que eu ia vencer com a minha voz. Tem horas que nem sei como eu cheguei até aqui…

A sua política é a música?
A minha política é estar viva, respirando e não ter medo, lógico! O homem subestima demais a mulher, ele não se lembra que para ele estar aqui tinha que ter uma mulher para dar vida a ele. Por isso afirmo sempre que Deus é mulher!

Uma mensagem para as mulheres?
Mulheres, vamos nos unir cada vez mais, uma dando a mão para a outra.

‘Lá vai menina
Lata d’água na cabeça
Vencer a dor,
que esse mundo é todo seu
Onde a água santa foi saliva
Pra curar toda ferida
Que a história escreveu’
Trecho do samba enredo ‘Elza Deusa Soares’, do carnaval 2020 da Mocidade Independente de Padre Miguel

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Um furacão chamado Nany

Por Claudia Mastrange

Nany People chega chegando. No talento e no bom astral. Não é à toa que o seu atual espetáculo, em cartaz no Teatro PetroRio das Artes, no Rio, chama-se ‘TsuNany’. Com mais de 40 anos de carreira, formada em interpretação e tendo trabalhado ‘desde sempre’ nos bastidores do teatro, ela ganhou um pouco mais o coração do público ao viver o Marcos Paulo de ‘O Sétimo Guardião’ e, mais recentemente, brilhou soltando a voz no ‘Popstar’.

Transexual, nunca fez cirurgia de resignação sexual em respeito a um pedido da mãe. “Nunca foi fácil, mas não gosto de vitimismo. Sempre corri muito atrás, trabalhei em três, quatro empregos para segurar a onda. Fui garçom, maquiador, camareira, passadeira… até poder viver de teatro. Agora está nascendo um novo espetáculo, ‘Nany é Pop’, em que vou cantar o amor em seus vários estágios. Sou ligada no 220!”, avisa ela, que também aguarda a estreia de dos filmes: “O Troco’ e ‘Quem Vai Ficar com Mário’. Em entrevista ao Diário do Rio, plena aos 54 anos, Nany fala de carreira, maturidade, sexualidade, humor e intolerância. Confira!

Início no Chacrinha
Comecei com 10 anos. Aos oito cantei no Chacrinha, em Poços de Caldas. Três meses depois Chacrinha voltou, eu cantei de novo e ganhei uma televisão. Depois ganhei uma bolsa de estudos para o Conservatório Musical, que é ao lado do Teatro da Urca, homenagem ao tradicional Cassino da Urca. Meu solo novo, o espetáculo solo ‘Nany é Pop’, vou estrear lá. Com 20 anos fui pra São Paulo estudar teatro, fiz a peça ‘Macunaíma’, cursei interpretação na Unicamp e trabalhei dez anos no Teatro Paiol, com Paulo Goulart e Nicete Bruno. Foi minha grande estufa! São 44 anos e nunca parei. Devido ao teatro fui parar na televisão. Na época do Paiol me convidaram para fazer show, um tempo depois eu fazia em sete casas diferentes. O [apresentador] Goulart de Andrade soube que tinha uma criatura ‘causando’ no Resumo da Ópera e me chamou pra para fazer um quadro no ‘Comando da Madrugada’, na Manchete, em 1996. Em 1998 trabalhei com Amaury, Band, depois voltei com Goulart na Gazeta e, em 2001, fui para a Hebe. Tudo isso estando também o teatro. Em 1998 fiz teatro, no centenário de Brecht, depois veio a rádio Jovem Pan, com Jairo Bouer. Tudo junto. Sou ligada no 220 [risos]. Acordo às 6 da manhã, pareço tia velha do interior que acorda cedo para molhar as plantas. Eu gosto da vida!

Lília Cabral: inspiração
Na Globo era pra ficar três meses e fiquei até a última cena da novela. Encontrei a atriz que me inspirou nos anos 80, Lilia Cabral. Em 1984 fui ver ‘Piaf’ e desci a Rua Augusta pensando: tenho que ir pra São Paulo fazer teatro. Quando vi Lília Cabral em cena, pensei: é isso que quero fazer. E 30 anos depois vim encontrar essa mulher que me inspirou e que sempre acompanhei. Sempre gostei da linha dela, ela é dramática, mas também bem-humorada. Você torce para a vilã que ela faz… Ela é de verdade, bate o texto olhando nos teus olhos.

Viu a Nany People? Do nada…
Devido a essa projeção que a novela dá o povo diz: “viu a Nany People?”. Do nada… As pessoas me viam em programa de humor, linhas de show e achavam que eu era uma doida que saiu do Kinder Ovo para cantar ‘I Will Survive’. E não é isso, não faço só stand up. Em 2015, em uma peça chamada ‘Caros Ouvintes’, que se passa final dos anos 60, AI-5 rolando, eu fazia uma senhora de extrema direita homofóbica e fui indicada ao Prêmio Quem de Teatro. Primeira vez que uma trans foi indicada a um prêmio de teatro.

‘Sepultei minha mãe numa sexta e sábado estava no palco’
Eu já abri mão de relacionamento, casei com meu trabalho. Teve época de gravar novela de segunda a sábado e, mesmo assim, fazer teatro no Rio. Concilio, dou um jeito… Sepultei minha mãe numa sexta, no sábado estava no palco, até como terapia, precisava do dinheiro pra sobreviver Odeio esse vitimismo. Quando você faz 50 anos, descobre eu metade da sua ampulheta já caiu. Você já passou por tanta coisa, que agora passa rindo. Tipo, meninos vestem azul e meninas vestem rosa. Com quatro anos cantei de rosa para ganhar um cone de doces rosa, que viraria chapéu de fada. Meu pai falou: “meninos vestem azul, meninas vestem rosa”. Então ouço esse discurso há 50 anos!

Teatro é amante caro
A internet da voz a um bando de idiotas, que não tem o que falar. Mas uma hora isso vai passar. A pessoa não tem o que fazer, vira ‘digital influencer’, todo mundo quer ser blogueiro. Não tem formatação nem fundamentação, não tem ofício e vira blogueiro, ‘pessoa pública’. Pessoa pública no meu tempo era puta. E depois vê que não consegue vender o canal e se dá conta que é um grande equívoco. Então acho que essa modinha vai passar. O que é celebridade? O teatro é um amante muito caro, que te pede muito e não te promete nada. Então você tem que ler muito, estudar muito, trabalhar muito…

Brincadeira de dizer verdades
Estamos em alta temporada de verão, com ótimo púbico mesmo com as pessoas hoje viajando mais. Concorremos com NetFlix, mídia, TV a cabo… Mas estamos lotando esse teatro, creio que pelo humor. Mas penso que não é só humor pelo humor… Ele é usado para se dizer coisas que normalmente as pessoas não dizem. Brecht [dramaturgo alemão] dizia que qualquer discurso para ser ouvido tem que ser bem humorado. O humor é libertador. Chaplin disse: “se você tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades teria ouvido verdades que insisto em dizer brincando. Falei muitas vezes como palhaço, mas nunca desacreditei da seriedade da plateia que me ouvia”. O humor tem o poder de penetrar na alma das pessoas.

Idade do umbral
Aos 50 anos você está no umbral, não é jovem nem velho. Como na época dos 14,15, que não é criança nem adulto. Se não pode ir à balada e ficar esperando duas horas em pé na fila porque não tem mais joelho pra isso! Agora tenho uma característica: só pego novinho, na casa dos 20. Se Madonna pegou Jesus, quero os querubins. Quem gosta de pau velho é orquídea, eu sou trepadeira. Falo isso no show. Ao contrário da Susana Vieira, não tenho paciência para quem está terminando [risos]. Mas é isso. Com 50 você já passou metade da sua vida blefando. Vou ser feliz quando eu puder compra as coisas ou quando casar… Não dá mais pra protelar a felicidade, esperar três verões. Não dá. Ter 50 é libertador. A essa altura você já casou descasou, chorou, traiu, foi traída… Quero viajar, reunir as pessoas, usufruir mais. Bem mais.

‘Dinheiro serve para adubar sonhos’
Você descobre que o dinheiro, na verdade serve para adubar sonhos. É um esterco. Perdi minha mãe quando eu tinha 37 anos. Ela descobriu um câncer, operou e morreu num espaço de um mês e meio. E o médico disse que eu não acreditasse em falsas promessas de cura, tirá-la de Poços de Caldas, etc. Na época eu trabalhava com a Hebe e ali vi que não adiantava ter dinheiro, prestígio, nada. Então a vida, como disse Gonzaguinha, “é um sopro do criador”. Então você tem que aproveitar a vida e trabalhar no que gosta. Porque são dois terços da vida que passamos trabalhando e, se a gente faz o que gosta, se diverte.

Limite para o humor
O Teatro de Revista foi o precursor do stand up. Eles faziam isso. Oscarito, Grande Otelo, depois Chico Anysio, Miéle e Rogéria eram ‘entertainments’. Contadores de piadas, divertiam as plateias. Na essência, o stand up é isso. E hoje, comercialmente é um espetáculo mais viável do que montar um musical. Teatro em pé. Você e o microfone. Mas houve um equívoco de se pensar que quanto mais escrota fosse a piada, mais inteligente o humorista era. E começou-se a pagar um preço por isso. Você pode pensar o que quiser. Mas tem que saber a maneira de falar. O limite do humor é o bom senso. Tem limite pro fogo? Tem, porque se deixar a mão nele, queima. Hebe me disse: “o microfone é uma arma, você pode usar contra ou a seu favor”. Se você vai falar num evento onde as pessoas estão comendo, não vai fazer piada com detrito.

As valsas da vida
A gente tinha que aprender a viver a vida sem pretensão. Somos muito pretensiosos, você acha que a coisa tem que acontecer porque está lá. E não é assim. Minha mãe dizia que a vida é uma festa. A gente chega e já esta rolando, você vai sair e vai continuar rolando. E uma hora você pode estar de garçom, outra de convidado, outra de penetra. E o que conta da festa são as grandes valsas que você pode dançar. É bem assim.

Galera mais jovem
O público jovem me viu na novela, no Poppstar, e pede para tirar foto. Muitos me conhecem por conta dos pais e avós que me conheciam da Hebe. Quando cheguei ao Rio achei que ninguém ia me conhecer, mas que nada! Me param na rua… “Ê Nany!”, na maior intimidade e alegria. O Rio esta sendo muito generoso comigo. Vim pra ficar três meses e vou completar dois anos, emendando uma coisa com outra.

Popstar: ‘fui prejudicada por um produtor’
No Popstar realizei meu sonho de ser cantora, porque ali são atores que cantam, é tudo dentro de um personagem. Não temos obrigação de saber todas as técnicas vocais, etc. É pra se divertir, fazer algo que está fora da zona de conforto. Cheguei a ir para a repescagem, mas voltei. Agora, eu fui muito prejudicada por um produtor, que baixava demais o tom das músicas. Falei: “obrigada por ter me tombado. Eu não ia vencer, mas chegaria à final”. Mas me diverti muito, eu fiz muito bem meu papel.

Nany por Nany
Sou pau pra toda obra e obra pra todo pau… Não tem assim, só a atriz, a humorista… Sou tanta coisa. Mas a atriz vem na frente. Não me arrependo de nada em minha vida. Você faz as coisas do jeito que é viável fazer. Por instinto, por sobrevivência.

Tempos de intolerância
Quando é que foi possível [a aceitação pública]? Meu nome deveria ser Nany Piracema porque eu levei 18 anos pra ter direito ao meu nome. Entrei na Justiça e questionavam o porquê de tudo, era preciso fazer a cirurgia e tinha que fazer exames para provar se havia quantidade de hormônios femininos. Antigamente tudo era pior. O governo eu nem considero intolerante, considero burro. E a ignorância é a pior porque todos agem como crianças mimadas. E aí não tem diálogo. A ignorância é atrevida e isso me dói, seja no governo ou nas pessoas. Não me deixo catalogar, não me peça esse serviço de lutar por inclusão, etc. A vida é um eterno vestibular.

Tratamento psiquiátrico aos 12 anos
Hoje há até uma aceitação maior, muito mais por parte das pessoas em geral. Antigamente nem se falava desses assuntos na hora do almoço. Com 12 anos me jogaram no psiquiatra, tomei hormônio masculino até os 17, mas não tinha para onde fugir. Eu era menor de idade, mas acabei me rebelando. Não fiz e depois entendi que era trans, busquei tratamento e hoje só lembro que sou trans quando alguém cita. Eu sou mulher.

Fotos: Diário do Rio

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Cássio Gabus: ‘a paixão te desarma de qualquer jeito’

Por Claudia Mastrange

O início de um amor maduro tem conquistado o público que assiste à novela ‘Éramos Seis’. Afonso (Cássio Gabus Mendes) não consegue mais esconder sua paixão por Lola (Glória Pires). A delicadeza das cenas e a atuação sutil dos dois atores, feras da dramaturgia, tem dado o tom e tornado ainda mais envolvente a trama das seis da Globo. Feliz com a nova parceria com Gloria, Cássio Gabus comenta sobre esse bate-bola afinado em cena e nos bastidores, sua relação com a fama e os paparazzi e as coisas do coração. Confira!

Como você criou sua interpretação do apaixonado Afonso?
Acho que houve umas pequenas modificações em relação às outras versões da novela. Esse personagem me parece que era um pouco isolado, e tinha uma coisa bem “geladinha”, um outro formato. Eu sabia desde o início que seria diferente agora, com outro envolvimento. Fui testando algumas coisinhas e ficando muito feliz. Quando é feito um remake, às vezes você procura nem assistir a versão anterior para não ter uma influência, pois, inconscientemente pode carregar uma coisa que não é criação sua, é complicado. É o que eu sempre digo: você tem esse poder de criação na mão quando te apresentam um personagem – mas esse resultado, com o andar de uma obra aberta, depende muito da história, de como ela é conduzida, do texto.

Como é contracenar mais uma vez com a Glória Pires, que já foi sua parceira de cena em outras novelas memoráveis?
É um prazer muito grande sempre, né? Essas coisas na vida que a gente não explica, vamos nos esbarrando… Eu tenho um carinho e uma admiração gigantes pela Glorinha, ela é uma das principais atrizes que temos no nosso país, né? É de um carisma muito forte, uma técnica extremamente apurada. O que isso facilita o trabalho do outro é impressionante. Eu moro em São Paulo, não temos convivências como amigos rotineiros, mas a gente sempre teve nos bastidores uma convivência excelente e divertida. Talvez isso dê essa liga. A gente não sabe de onde vem essas ligas… Quando a gente tá dentro fica difícil ter essa visão.

Lola e Afonso são um casal que vai se apaixonar já maduro. Amar na maturidade, você acha que é mais fácil?
Não sei te dizer. Eu acho que a paixão vai te confundir, vai te derrubar, te fazer ficar ridículo em qualquer idade. Porque quando estamos muito apaixonados, que é uma delicia, a gente fala barbaridades, não é verdade? Quando você se ouve depois de um tempo, pensa “nossa, eu falei isso?”, coisas como “seus olhos tão lindos”, você tá falando como novela. E isso é normal, acho que isso não tem idade. Não vejo que, amadurecendo, você vá tratar diferente. A paixão te desarma e depois o amor vem em outra posição, eu acho. A paixão te desarma de qualquer jeito. É mais forte que você.

Desde o início, o Afonso tem os olhares, um carinho a mais por Lola. Você acha que, depois de tantos problemas, os dois merecem essa felicidade?
Novela, a gente nunca sabe o que vai acontecer, mas… Tem que se programar um pouco. Tinha que ter admiração, um conflito. Muitas vezes os dois têm uma liga, mas não se tem uma história pra contar. O romance de Lola e Afonso ainda não chegou a acontecer no ar, nem gravamos ainda. É tudo muito delicado, suave, dentro dessa posição, dentro dessa poesia que são esses dois personagens. Eles têm uma fragilidade, um romantismo muito bonito, não é? E é bom ver a reação do público, até se for “eu quero matar essa pessoa!”, é bom pra caramba [risos]. Mesmo que o cara [espectador] queira te estrangular, te pegar na rua, é o resultado, é isso que interessa.

Recentemente, foi divulgada uma foto sua com a sua esposa, a também atriz Lídia Brondi, que gerou muita repercussão nas redes sociais. Foram muitas mensagens de carinho, desejando felicidades, perguntando se a Lídia estava bem… Como você lida com esse carinho das pessoas por vocês?
Quando seu trabalho é exposto e você recebe o carinho das pessoas, você tem esse respeito, tem uma história de vida. As pessoas te acompanham de alguma maneira, né? Hoje em dia ainda mais, inclusive, em função das facilidades que se tem. Evidentemente que, de alguma forma, se você tem uma exposição maior…

Isso assusta um pouco?
Não é que assusta, não é de assustar. Eu não vou deixar de ir ao shopping, ao restaurante que eu quero, quando estou na hora da minha folga, por saber que vai ter alguém… E daí? Eu não tô fazendo nada, tô dando uma olhada, qual é o problema? É até bom isso, esse ‘oi’ [de algum fã eventual]. Não tenho problema com isso. Sobre os paparazzi, entendo até que é o trabalho das pessoas. Tem uns movimentos que… É uma coisa chata, mas faz parte. Eu, Cássio, não vou deixar de ir a algum lugar porque a pessoa vai me fotografar saindo do restaurante. Eu só espero um dia não sair caindo de bêbado no chão e ser fotografado no restaurante. Também é minha vida, não vou deixar de fazer determinadas coisas em função disso. Se você não estiver a fim de certas pessoas, não vai ali.

É a coisa mais linda a relação do Afonso com a Inês (Carol Macedo), não é? Realmente prova que pai é quem cria…
É, tem uma força muito bacana, sempre teve desde o início, né? Principalmente na primeira fase. Essa menina saiu da barriga do lado dele! Acho que qualquer situação que alguém conheça ou que participou na vida, não tem o que discutir: ele é o pai e ela é a filha. E quando você afasta isso, isso entra numa violência extrema, é como se você perdesse um filho e perdesse um pai, numa idade dessas. Só essa situação é muito poderosa, é um conflito muito real, na verdade. O reflexo do sofrimento tem que ser óbvio. “Como assim, você vai embora com a minha filha? Vou perder minha filha. Eu entendo até que você gosta dessa pessoa, eu sou muito bom… mas é minha filha! Como é que vai fazer isso?” A história conseguiu contar e mostrar isso no tempo certo.

Foto: Raquel Cunha/TV Globo