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Notícias do Jornal Vitor Chimento | Serra

CUTELARIA: um patrimônio, uma arte transmitida de geração a geração

 

A cutelaria é uma arte, uma ciência de elegância. Maestria e know-how são os dois elementos indispensáveis à criação de um objeto de arte.  O profissional transforma a matéria para criar um utensílio harmonioso, útil e refinado. Para cada peça, o artista utiliza,  na sua totalidade, a matéria-prima de forma artesanal  e Independente, antes de ser personalizada. O cuteleiro  digno de seu nome faz opção somente por material não industrializado  e selecionado com o maior cuidado para atender as exigências do oficio.

O Jornal Diário do Rio foi ao encontro do profissional da forja, Bruno Zagallo de Amorim, para conhecer um pouco de seu trabalho e desse fantástico universo da arte de transformar, a cutelaria.

 

JDR Em que instante a cutelaria despertou sua atenção e interesse?

Bruno −  Quando comecei na cutelaria não imaginei que se tornaria uma profissão de verdade. Estava no Maranhão, trabalhando em um projeto, pelo Museu Nacional, de Conservação da Ictiofauna do Rio Tocantins, coordenando a parte de campo com os pescadores locais. Eu ficava de duas a três semanas por mês no Estado, muitas vezes sozinho. Por conta desse trabalho e dessa estadia realizei minha primeira obra, uma espada de samurai, feita de forma arcaica, sem nenhuma técnica, desbastando, somente um pedaço de aço cru. Depois fiquei, aproximadamente, 5 anos sem sequer forjar o metal.

 

JDR − Quem te inspirou e te iniciou! verdadeiramente! neste universo?

Bruno − Depois de um certo tempo, após o término do projeto, voltei para morar em Miguel Pereira. Fui, então, apresentado ao Sr. Nelson Furtado, um mestre de oficina, aposentado da Rede Ferroviária Federal S.A., responsável pela minha iniciação no mundo da cutelaria. Foi o senhor Nelson que me ensinou as técnicas da profissão e que me ajudou, através de livros que me emprestou, a buscar conhecimentos que me ajudaram a desvendar e me apaixonar pela arte. Aprendi a forjar com ele. Tornou-se uma grande amigo e mestre, aos 86 anos . Forjando juntos e aprendendo e observando as artimanhas da forjaria e de outras artes.

 

JDR − Você segue um estilo ou uma linha na sua elaboração?

Bruno − Cada cuteleiro desenvolve seu próprio estilo, e, mesmo querendo “imitar” outros, isso não se traduz em sua obra final. Cada artesão tem uma marca própria, o jeito único que martela o aço quente, o jeito que aperta a lâmina contra a lixa, a forma que dá ao cabo, a forma que enxerga sua arte, tudo isso é único. Eu comecei utilizando material reutilizável, capas de rolamento, molas de suspensão de automóveis sucata em geral. Hoje tenho fornecedores sérios, com aço certificado e de vários tipos: inoxidável, aço alto carbono. Cada um bem específico para cada tipo de faca a ser fabricada.

Foto: Divulgação

JDR − Como é feita a escolha do design e o tipo de faca a ser confeccionada?

Bruno − A maioria das facas que produzo são por encomenda e, geralmente, converso com o cliente sobre suas preferências quanto ao uso do material, uso prático, suas vantagens, tamanho da lâmina, do cabo, material do cabo, etc…  Quando faço uma lâmina de criação própria busco inspiração em grandes mestres da cutelaria, geralmente russos, japoneses e americanos. Mas sempre com meu estilo. Procuro, só “copiar” uma lâmina, quando solicitado por um cliente e, mesmo assim, costumo não chamar de cópia e sim se releitura.

 

JDR − São muitos os processos de elaboração da obra até a sua conclusão?

Bruno − A fabricação de uma lâmina requer vários processos minuciosos e o tempo para a execução de uma faca varia muito. Não só pelo tamanho, às vezes fazer uma faca pequena, mas elaborada, demora bem mais do que o tempo que se levaria com uma maior e rústica. Dependendo dos processos envolvidos, se vai ser de recorte ou se vai ser totalmente forjada à mão, tipo de cabo, espiga, integral, materiais utilizados….  Como toda arte, demora, requer tempo humano e por isso são mais valiosas. Bem mais que um simples utensilio de cozinha, a faca é uma verdadeira obra de arte que não para de evoluir através dos tempos. Desde a Idade Média a faca é passada de utensílio a objeto de coleção. Conservando, sempre, seu lugar sobre as mesas e de destaque dos grandes chefes de cozinhas, nacionais e internacionais.

 

 

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Vitor Chimento | Serra

Fazenda Santa Cecília

Toda história da nossa região serrana remonta ao ano de 1700, quando o bandeirante Garcia Rodrigues Paes Leme, filho do ‘Caçador de Esmeraldas’ Fernão dias Paes, partiu do lugarejo de Paraíba do Sul em direção à serra do Tinguá, abrindo pelas montanhas um caminho que reduzisse o tempo de viagem entre as Minas Gerais e a Corte Portuguesa, instalada na cidade do Rio de Janeiro. Acompanhado por mineradores, fazendeiros e escravos, o bandeirante alcançou a Roça do Alferes (hoje Acozelo), seguiu em direção à serra até as localidades de Marco da Costa e Vera Cruz. A partir daí, as tropas de exploração subiram os morros, no sentido da atual Lagoa das Lomtras, de onde desceram para o Porto de Pilar ─ hoje Duque de Caxias ─, seguindo até o porto do Iguaçu, de onde seguiram, via pluvial, para o Rio.

Este caminho ficou conhecido como “Caminho Novo de Minas” e favoreceu, entre outros, dezenas de sesmeiros ─ pessoas que recebiam do magistrado português terras por doação para cultivo ─, que vieram a se estabelecer nas colinas. Dentre os colonizadores da região se destacou Manoel de Azevedo Mattos. Vindo das Minas Gerais, resolveu instalar-se no Morro da Viúva, onde construiu, em 1770, a primeira moradia da Fazenda da Piedade de Vera Cruz (atual Santa Cecília), no estilo colonial, concluída em 1780.

O filho de Manoel, Inácio de Souza Werneck, foi fazendeiro, sargento-mor das milícias do Império e Cavaleiro da Ordem da Rosa, tornando-se um dos personagens mais importantes da região. Ele colonizou Vera Cruz e ampliou as instalações da importante fazenda da Piedade. Da sua união com Francisca das Chagas Werneck teve filhos que se uniram a outras pessoas importantes, deixando assim numerosas famílias de nobres espalhadas pelo Sul Fluminense. Em 1811, ao ficar viúvo, Inácio abraça a carreira eclesiástica, abandonada quando ainda jovem, e no ano de 1813, em cerimônia realizada na própria fazenda, foi ordenado padre. O fazendeiro passou a ser conhecido como padre Werneck de Vera Cruz.

Com a morte de seu pai Inácio, Ana Matilda, casada com o fazendeiro Francisco Peixoto de Lacerda, herda a fazenda da Piedade (atual Santa Cecília). O casal teve somente um filho, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, que recebeu mais tarde, por ordem do Imperador Dom Pedro I, o título de Barão de Paty dos Alferes. O barão, em 1840, realizou, no apogeu do ciclo do café e com a importância histórica da fazenda, uma grande reforma em seu estilo colonial (inicial) para o neoclássico. Foi, sem dúvida, uma grande personagem da história. Homem culto, aristocrata e político, proprietário de grandes plantações de café, de vastas áreas de terras e de um grande número de escravos. Foi de grande importância no desenvolvimento da região, graças ao seu bom relacionamento com a Corte.

A Fazenda Santa Cecília, está localizada no município de Miguel Pereira, distante 15 km do centro da cidade, no Distrito de Vera Cruz. A fazenda possuía uma senzala, um espaço para secagem de café e um moinho de cana. Com as reformas feitas ao longo dos anos, as pedras de secagem do café foram reaproveitadas para fazerem o caminho da piscina. Grande parte de sua arquitetura e mobiliário foram mantidos intactos pelos atuais proprietários. Nos jardins se encontra uma capela dedicada à Santa Cecília, desenhada e projetada pelo arquiteto Oscar Niemayer e presenteada a Maria Cecília, filha de seu grande amigo e proprietária da fazenda, que mantém e preserva com muito zelo este patrimônio histórico de nossa região.

O jornal Diário do Rio agradece as informações cedidas pela Prefeitura e pelos informativos do historiador Sebastião Deister.

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Vitor Chimento | Serra

Miguel Pereira guarda memória de uma pequena história do Rei do Baião

Em uma sexta-feira, dia 13 de dezembro de 1912, no sopé da Serra do Araripe, na Fazenda Caiçara, povoado do Araripe, a 12 km da área urbana da cidade de Exu (PE), localizada a 610 km da capital Recife. Nasce o segundo dos nove filhos do casal Januário José dos Santos (Mestre Januário) e Ana Batista de Jesus Gonzaga do Nascimento (Mãe Santana): Luiz (por ser dia de Santa Luzia) Gonzaga (sugestão do padre) Nascimento (por ter nascido em dezembro, mês do nascimento de Jesus Cristo).

Luiz Gonzaga do Nascimento foi soldado, como corneteiro, por dez anos. Recebeu, entre outros, os apelidos de ‘Rei do Baião’, ‘Majestade do Baião’, ‘Velho Lua’, ‘Bico de Aço’, ‘Gonzagão’. Inventor do forró ─ trio pé de serra ─, baião, quadrilha, xaxado, arrasta-pé e xamego. Seu instrumento era um acordeão de 120 baixos.

Hospital que o artista ajudou a construir

Foi uma das mais completas, importantes e inventivas figuras da música popular brasileira. Cantando, acompanhado por sua sanfona, zabumba e triângulo, levou alegria das festas juninas e dos forrós pé de serra, bem como a pobreza, as tristezas e as injustiças de sua árida terra ─ o sertão nordestino ─, para o resto do país, numa época em que a maioria das pessoas desconhecia o baião, o xote e o xaxado. Ganhou notoriedade com as canções ‘Baião’, ‘Asa Branca’, ‘Siridó’, ‘Juazeiro’, ‘Qui nem Jiló’ e ‘Baião de Dois’.

Luiz Gonzaga se referia a Miguel Pereira como a ‘Suíça brasileira’. Era a preferida de todas as serras do Estado do Rio, onde viveu por um período e teve uma relação muito particular com os moradores locais e a cidade, que foi seu refúgio, mais precisamente na Fazenda Asa Branca. Nas festas de Santo Antônio, padroeiro da cidade, era comum ele se apresentar com seus trajes típicos, sua sanfona e cantar os seus sucessos.

Gonzagão e Gonzaguinha

Em 1957, após a emancipação do município, algumas pessoas passaram a se reunir em torno da ideia de construir um hospital. O artista se juntou ao grupo e passou a promover bailes e forrós beneficentes para arrecadar dinheiro e incentivar os cidadãos participarem da construção. Ele chegava, às vezes, ao largo da igreja com um grande lençol, pedia que as pessoas o sustentassem pelas extremidades e carregassem à sua frente. Atrás, ele vinha tocando sua sanfona, cantando seus sucessos e arrecadando tudo que pudesse ser revertido em dinheiro para a construção. O hospital, único da região, leva o seu nome. Já em 1958, sua esposa Helena Gonzaga foi eleita vereadora pela extinta UDN.

Há um grande reconhecimento da população à memória de Luiz Gonzaga. Não só pelo fato de ter contribuído e participado, dentre outras coisas, na construção do hospital, mas também por ter cantado eternizado Miguel Pereira em uma de suas mais conhecidas canções. Fez da nossa cidade parte de sua história e registrou esse laço de amizade com a nossa terra, nossa gente, compondo, em parceria com seu filho Gonzaguinha, a canção ‘Boi Bumbá’. Na música, o Rei do Baião “reparte o boi” aqui em Miguel Pereira com personalidades locais.

BOI BUMBÁ

Pra onde vai a barrigueira?
Vai pra Miguel Pereira
E a vassoura do rabo?
Vai pro Zé Nabo
De que é o osso da pá?
De Joãozinho da Fornemá
E a carne que tem na nuca?
É de seu Manuca
De quem é o quarto trazeiro?
De seu Joaquim marceneiro
E o osso alicate?
De Maria Badulate
Pra quem dou a tripa fina?
Dê para a Sabina
Pra quem mando este bofe?
Pro Doutor Orlofe
E a capado filé?
Mande para o Zezé
Pra quem vou mandar o pé?
Para o Mário Tiburé
Pra quem dou o filé miõn?
Para o doutor Calmon
E o osso da suã?
Dê para o doutor Borjan
Não é belo nem doutor
Mas é bom trabalhador
Mas é véio macho, sim sinhor
É véio macho, sim sinhor
É bom pra trabaiá
Rói suã até suar
Ê boi, ê boi
Ê boi do mangangá.