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Vitor Chimento | Serra

Fazendas: memórias de um Brasil guardadas em alvenaria e pedra

As fazendas foram sedes dos principais centros produtivos da economia brasileira no século XIX e também as residências aristocráticas mais sofisticadas do período, reunindo o que havia de mais requintado.

O circuito das fazendas históricas do Vale do Paraíba do Sul Fluminense – o Vale do Café – abrange os Municípios de Vassouras, Valença, Rio das Flores, Barra do Piraí, Engenheiro Paulo de Frontin, Mendes, Paty do Alferes, Miguel Pereira, Paraíba do Sul e alguns Distritos como Ipiabas e Conservatória, que pertencem a Barra do Pirai e Valença, respectivamente.

O dinheiro do café construiu ferrovias, iluminação pública e promoveu todo tipo de investimento em infraestrutura que o Brasil edificou durante esse período, além das fazendas históricas construídas pelos nobres da região (“Barões do Café”) consideradas como verdadeiros palacetes rurais decorados e mobiliados com o luxo que a Europa tinha, na época, para vender.

As fazendas históricas do Vale do Café preservadas em sua arquitetura, em diferentes estados de conservação e rodeadas de belas paisagens, são um marco áureo do Ciclo do Café, do século XIX. As propriedades permitem vislumbrar como funcionava o processo de beneficiamento do grão do café e, em algumas dela,s os visitantes são recebidos por guias vestidos com trajes típicos .

Ao todo são em torno de 200 fazendas, sendo que, atualmente, somente 30 são abertas à visitação. São uma excelente opção para complementar ou iniciar a aprendizagem sobre o Ciclo Cafeeiro no Brasil e de se fazer uma viagem ao passado até o tempo em que os barões ostentavam poder e riqueza. cada uma possui uma história singular, com acontecimentos marcantes e curiosidades da época.

Fazendas do Vale do Café

BARRA DO PIRAÍ – Fazenda Arvoredo, Fazenda Taquara, São João da Prosperidade, Aliança, Fazenda Bocaina, Fazenda Ponte Alta
MIGUEL PEREIRA – Fazenda Santa Cecília, Fazenda São João da Barra
PATY DO ALFERES – Fazenda da Boa Esperança, Fazenda Monte Alegre, Fazenda Pau Grande
CONSERVATÓRIA – Fazenda Florença
PARAIBA DO SUL – Fazenda Boa Vista
RIO DAS FLORES – Fazenda Paraizo, Fazenda União, Fazenda Campos Elíseos, Fazenda Santo Antonio
VALENÇA – Fazenda Vista Alegre, Fazenda Chacrinha
VASSOURAS – Fazenda Cachoeira do Mato Dentro, Fazenda Secretário, Fazenda Cachoeira Grande, Fazenda Mulungu Vermelho, Fazenda Santa Eufrásia, Fazenda São Fernando, Fazenda São Luiz da Boa Sorte.

Fotos: Reprodução

Vitor Chimento, Biólogo e jornalista

MTb 38582 RJ

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Vitor Chimento | Serra

Aldeia de Arcozelo, um plano de sonho e esperança

A Aldeia de Arcozelo está localizada no município de Paty do Alferes, no Estado do Rio de Janeiro. Era a sede da histórica Fazenda Freguesia, de propriedade de Manoel Francisco Xavier e de sua esposa, a Baronesa de Soledade. Foi lá que, em 1838, se deu  a maior revolta de escravos ocorrida no Vale do Paraíba do Sul.

O tenente-coronel Gil Francisco Xavier herdou a Fazenda Freguesia. Endividado pelo jogo, cedeu ou vendeu a fazenda para o médico português Joaquim Teixeira de Castro, que mudou o seu nome para Fazenda Arcozelo (nome da propriedade da família, em Portugal, Freguesia de São Miguel de Arcozelo). A partir de 1930, o excelente clima da região passou a ser nacionalmente conhecido pela propaganda feita pelo médico infectologista Miguel da Silva Pereira. A fazenda histórica foi então transformada em hotel. Finalmente, a fazenda foi loteada e a parte com as edificações tornou-se propriedade de João Pinheiro Filho que, em 1958, com aprovação de seus filhos, doou-a ao embaixador Paschoal Carlos Magno.

Secretário-geral do Conselho Nacional de Cultura e presidente de diversas instituições culturais por todo país, Paschoal Carlos Magno era filho de italianos, nascido no Catete, bairro da cidade do Rio de Janeiro, em 13 de janeiro de 1906. Um idealista que dedicou toda sua vida à mocidade estudantil do Brasil e ao teatro. Fundador do Teatro do Estudante do Brasil, uma de suas maiores criações, de onde saíram artistas como Sergio Cardoso, Sergio Brito, Maria Pompeu, entre outros. Fundou, em 1965, aquele que seria o seu maior projeto: Aldeia de Arcozelo, registrada como Fundação João Pinheiro Filho, destinada a ser um centro de repouso para artistas e colégio de artes.

O complexo cultural incluía: o anfiteatro Itália Fausta, com 1.200 lugares; o Teatro Renato Viana, com 400 lugares; a sala de música Padre José Mauricio, para 150 ouvintes; os espaços para as artes plásticas, Galeria Pancetti e Galeria Bernardelli; a sala de vídeo Alberto Cavalcanti, com 80 lugares; biblioteca, coreto, além do edifício colonial com 54 quartos, salões e varanda.

O projeto exigia dedicação e uma considerável soma de dinheiro, o que fez com que Paschoal colocasse sua vida e seus bens nele. O piano de cauda, de sua casa em Santa Teresa, foi vendido para a construção da piscina. Outros de seus bens tiveram o mesmo destino: foram à venda para manutenção desse sonho.

O embaixador Paschoal Carlos Magno criou o complexo cultural

Em 1971, com altos e baixos, sofrendo e vencendo crises políticas, financeiras e jurídicas, a Aldeia foi sede do VI Festival Nacional de Teatro de Estudante, com participações de 32 grupos, realizando espetáculos ao ar livre e no Renato Viana. Sediou também inúmeros festivais, seminários e congressos de teatro, circo, dança, ópera, cinema, educação, artes plásticas, música e arte indígena. Em 1978, Paschoal Carlos Magno vende a casa de Santa Teresa para pagar dívidas acumuladas. No ano seguinte, ainda endividado, ameaçou atear fogo na Aldeia. O Brasil inteiro enviou notas de 1 Cruzeiro para salvar um importante e espetacular espaço cultural.

A Aldeia de Arcozelo, ou Centro Cultural Carlos Magno, foi considerado o maior centro cultural da América Latina em área, mas que após a morte de Paschoal, em 1980, teve sua decadência acelerada. Os herdeiros do embaixador chegaram a um entendimento e entregaram a Aldeia à Secretaria do Ministério da Educação e Cultura (MEC).

Hoje, a Aldeia de Arcozelo pertence à Funarte e foi interditada, baseada em laudo técnico,que apontou o perigo do imóvel desabar. Entre os problemas estão paredes com rachaduras, infiltração, janelas quebradas e parte do telhado com riscos de ruir. Criada há mais de cinco décadas, o local se transformou em um espaço em ruínas.

Fotos: Reprodução

Vitor Chimento, biólogo e jornalista

MTb 38582RJ

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