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“Os brasileiros perderam o medo da Covid-19’

 

Por Claudia Mastrange

Enquanto o Brasil enfrenta, em várias regiões do país, um aumento de casos de contaminação e morte por Covid-19 e a vacina ainda esta longe de ser uma realidade no país, o coronavírus já se apresenta em uma nova variante, gerando um alerta mundial. O virologista Raphael Rangel, delegado do conselho de Biomedicina no Rio de Janeiro e coordenador do curso de Biomedicina do Instituto Brasileiro de Medicina e Reabilitação – IBMR, em entrevista exclusiva ao Diário do Rio, fala sobre a pandemia, seu enfrentamento no Brasil e essa variante, 70% mais contagiosa do coronavírus. Ela já circula na Europa e nos Estados Unidos e, segundo Raphael, já pode ter chegado ao Brasil.

DIÁRIO DO RIO – Como vê a evolução da pandemia no mundo?
RAPHAEL RANGEL – “A pandemia, de uma forma geral, se desenvolveu muito rápido. Países como Estados Unidos e Brasil, por exemplo, demoraram muito para tomarem medidas mais restritivas e tiveram seus governantes negligenciando a Covid-19, com palavras como “É somente um resfriadinho”, “Uma gripezinha” e que logo ia passar. Com isso, acabou enfraquecendo muito o discurso dos cientistas e dos médicos com relação ao coronavírus. As pessoas passaram a não se proteger contra a doença e o resultado disso a gente percebe no número de pessoas infectadas e na infeliz marca de 190 mil mortos”.

DIÁRIO DO RIO – Fale sobre essa variante do vírus. Verdade que é 70% mais contagioso?
No que isso é perigoso para o enfrentamento a pandemia?
RAPHAEL RANGEL – É importante destacar que não é incomum os vírus sofrerem mutações, eles sofrem isso a todo instante. O que nos preocupa nessa variante é que a mutação que ocorreu nela codifica uma região importante do vírus que ele utiliza para entrar na célula hospedeira. Então essa mutação pode deixar o vírus 70% mais contagioso. Não que necessariamente isso já esteja acontecendo, mas ele tem poder para fazer isso.

DIÁRIO DO RIO – Essa variante deve chegar ao Brasil?
RAPHAEL RANGEL – Essa variante já pode estar sim no Brasil, precisamos intensificar o que chamamos de vigilância genômica, que é realizar o sequenciamento do RNA viral dos coronavírus que nós temos aqui no Brasil, identificar para saber se ela já está aqui. Mas, se não tiver, ela pode chegar sem sombra de dúvida.

DIÁRIO DO RIO – O Brasil vive ou uma segunda onda de contágio? Ou não saímos mesmo na primeira ?
RAPHAEL RANGEL – O Brasil vive uma segunda onda, obviamente em regiões específicas como Rio de Janeiro e São Paulo. Uma segunda onda é caracterizada quando tivemos a primeira onda de números de casos e internações, que decaíram. E , de meados de outubro para cá, o número de infectados, internações e mortes também aumentaram, isso caracteriza sim uma segunda onda.

DIÁRIO DO RIO – A que se deve esse aumento significativo na taxa de contágio e mortes?
RAPHAEL RANGEL – “Esse aumento de número de casos vai de encontro com duas questões. A primeira é que os brasileiros perderam o medo da Covid-19, muitas pessoas sem máscara, não praticando o distanciamento social, principalmente os jovens que estão indo para a balada e bares lotados. E a outra questão é que os governantes fizeram medidas de flexibilização e não obedeceram o tempo mínimo para fazer, exemplo do Rio de Janeiro que não esperou de duas em duas semanas que é cada fase de flexibilização. Fizeram até mesmo duas fases em uma semana só. Então essa reabertura que deveria ser gradual. Acontecendo de forma equivocada acaba ajudando também na dispersão da doença.

“O Brasil está
bem longe de conseguir controlar
a pandemia”

DIÁRIO DO RIO – O que achou do Plano Nacional de Vacinação?
RAPHAEL RANGEL – “O plano nacional de vacinação obedece a um script, não é nada surreal. O Brasil, até o momento, não fez nenhum acordo significativo a não ser com a AstraZeneca, e comprou 100 milhões de doses aqui para o nosso país. Mas percebemos que na fila das melhores vacinas, como por exemplo, a da Pfizer, que os Estados Unidos está usando, nem demonstramos interesse de compra. Caso o Brasil vier a demonstrar interesse agora, só conseguiremos algumas doses no final de 2021. Enquanto já passamos da marca de 3 milhões de pessoas vacinadas do mundo, o Brasil segue sem vacina e sem um plano de vacinação fidedigno. Vizinhos como a Argentina já estão vacinando”.

DIÁRIO O RIO – Quando acredita que conseguiremos controlar? Podemos chegar a que número de mortos?
RAPHAEL RANGEL – “Eu diria que o Brasil está bem longe de conseguir controlar a pandemia. Temos uma incapacidade de gerenciá-la no nosso país, muito por conta dos nossos governantes. Estamos passando por uma das piores pandemias que o mundo já viveu, com um ministro da saúde que nem da área da saúde é. Ele é formado em logística. E mesmo assim, tivemos diversos testes estragando, passando da validade em um galpão em São Paulo. Então o Brasil está bem longe de vencer ou controlar a pandemia, essa situação segue no descontrole. Exemplo disso é que todos querem testar vacinas por aqui”.

DIÁRIO O RIO – E quanto ao recontágio? Há como prevenir? Ele acomete algum grupo em especial?
RAPHAEL RANGEL – A reinfecção é possível e tem acontecido. Aas pessoas têm uma falsa ideia de que, uma vez que a pessoa tem a doença, ela nunca mais terá. Isso não é uma verdade. As pessoas que tiveram Covid podem ter novamente, porque os anticorpos, após cinco, seis meses acabam zerando, podendo haver uma nova reinfecção com a doença, e sendo ela suscetível a qualquer um.

Foto: Divulgação