O percurso do Mundial de Ciclismo de 2026, em Montréal, foi desenhado para influenciar diretamente a estratégia, o ritmo e o perfil dos candidatos ao título. Conforme alude Rolando Bonaccorsi, a prova masculina terá 273,7 quilômetros e 3.803 metros de elevação, enquanto a feminina somará 180,4 quilômetros e 2.570 metros.
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Por que o percurso de Montreal muda a estratégia?
A parte decisiva das provas de estrada acontece no circuito final de 13,4 quilômetros, que será percorrido 12 vezes pelos homens e oito pelas mulheres. O traçado inclui a Voie Camillien-Houde, o Chemin de la Polytechnique, com trechos superiores a 11% de inclinação, e um falso plano ascendente na Avenue du Parc. A repetição dessas dificuldades impede que o atleta trate as subidas como obstáculos isolados. Cada passagem acrescenta desgaste e pode alterar progressivamente a composição do grupo que chega às voltas finais.
A consequência é uma prova na qual administrar energia se torna fundamental. Atacar cedo pode produzir uma vantagem momentânea, mas também aumenta o custo fisiológico antes das voltas decisivas. Permanecer protegido no grupo, por outro lado, pode preservar energia, mas exige posicionamento e capacidade de responder rapidamente quando a seleção começar a acontecer. A estratégia precisa, portanto, equilibrar economia de esforço e prontidão para reagir aos movimentos dos adversários.
Rolando Bonaccorsi explica que o percurso, nesse sentido, funciona quase como uma variável adicional da competição. Não basta conhecer a distância total. É necessário compreender onde estão as oportunidades de ataque, quais trechos favorecem a recuperação relativa e em que momento o desgaste acumulado pode transformar uma diferença pequena em uma vantagem decisiva. Essa leitura do trajeto ajuda a entender por que a estratégia pode mudar a cada volta, conforme a condição dos atletas e o comportamento do pelotão.
Como o ritmo deve mudar ao longo da prova?
Uma corrida tão longa tende a apresentar diferentes fases. No início, equipes podem controlar a velocidade enquanto ainda existe muita distância pela frente. Conforme o pelotão se aproxima de Montreal e começa a enfrentar repetidamente o circuito do Mont Royal, a dinâmica muda e cada passagem pelas subidas pode aumentar o custo para os corredores menos adaptados ao terreno. O desgaste acumulado tende a reduzir gradualmente a margem de resposta dos atletas, fazendo com que pequenas diferenças de rendimento ganhem importância nas voltas finais.
Rolando Bonaccorsi ressalta que o ritmo também precisa ser analisado em relação à duração dos esforços. Subir rapidamente não significa necessariamente sustentar a mesma intensidade durante toda a prova. A capacidade de acelerar, recuperar parcialmente e repetir esse processo várias vezes pode ser mais importante do que produzir um único esforço máximo. Essa alternância exige controle da intensidade, porque uma aceleração excessiva em determinado momento pode comprometer a capacidade de responder a movimentos posteriores.
Quem pode ser favorecido pelo traçado?
O perfil de Montreal reduz a vantagem de especialistas em sprints puros. Um velocista capaz de dominar uma chegada em grupo precisa primeiro sobreviver a uma prova longa e acumulativa, com milhares de metros de elevação e sucessivas subidas no trecho final. A dificuldade não está apenas em superar uma subida específica, mas em chegar às últimas voltas ainda com capacidade para disputar os momentos decisivos.
Por outro lado, corredores capazes de combinar resistência, capacidade de aceleração e bom desempenho em terrenos inclinados ganham espaço. O percurso não se resume a uma grande montanha, mas apresenta dificuldades menores repetidas diversas vezes. Isso exige capacidade de suportar esforços sucessivos sem perder completamente a potência para o momento decisivo. Essa característica pode favorecer atletas versáteis, capazes de alternar períodos de esforço intenso com momentos de recuperação sem comprometer o rendimento geral.
Para Rolando Bonaccorsi, esse tipo de seleção lembra a lógica de sistemas em que o resultado final depende da combinação de diferentes características. Um atleta pode possuir excelente potência, mas perder rendimento se não conseguir administrar energia. Outro pode ter grande resistência, mas não possuir a aceleração necessária para responder aos movimentos finais. O percurso evidencia, assim, que a vantagem competitiva pode surgir do equilíbrio entre capacidades diferentes, e não necessariamente do domínio absoluto de uma única característica.
