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    Quem sou eu depois dos 70: como a reconstrução de identidade na velhice impacta saúde mental, vínculos sociais e adesão ao autocuidado?

    Aurora ValdiniPor Aurora Valdinijunho 24, 2026Nenhum comentário4 Min de leitura
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    Yuri Silva Portela
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    Conforme elucida o Dr. Yuri Silva Portela, fundador do projeto social Humaniza Sertão, que a reconstrução identitária na velhice não é um processo secundário ou meramente filosófico, mas um fenômeno com implicações diretas sobre saúde mental, qualidade dos vínculos afetivos e disposição para o autocuidado. Nesse sentido, a crescente demanda por uma medicina que compreenda o idoso além de seus diagnósticos tem colocado em pauta uma questão que raramente aparece nos protocolos clínicos: o que acontece com a identidade de uma pessoa quando ela envelhece? 

    Prepare-se para entender como a pergunta mais simples sobre si mesmo pode ser, na terceira idade, uma das mais decisivas para a saúde.

    A identidade construída pelo trabalho e o vazio da aposentadoria

    Durante décadas, a identidade adulta é fortemente ancorada no papel profissional. O que se faz, onde se trabalha, qual função se ocupa, esses elementos funcionam como coordenadas de reconhecimento social e autocompreensão. A aposentadoria, ainda que desejada, representa uma ruptura com esse sistema de referências. Para muitos idosos, a saída do mercado de trabalho não é apenas uma mudança de rotina, mas uma crise de sentido que deixa sem resposta a pergunta básica: quem sou eu agora?

    Yuri Silva Portela retrata que esse vazio identitário pós-aposentadoria é um fator de risco subestimado para depressão, isolamento social e perda de motivação para o cuidado com a saúde. O idoso que não encontra novas fontes de significado tende a reduzir sua participação em atividades sociais, abandonar hábitos saudáveis consolidados e apresentar piora progressiva em indicadores de saúde mental, mesmo na ausência de doenças orgânicas identificáveis.

    Os papéis sociais que mudam e os que desaparecem

    Além do trabalho, a identidade é estruturada por papéis relacionais: ser pai ou mãe de filhos jovens, ser o provedor da família, ser a pessoa ativa e independente do grupo social. Com o envelhecimento, muitos desses papéis se transformam ou se invertem. Os filhos tornam-se cuidadores. A independência cede espaço à necessidade de apoio. A vitalidade que definia a presença social vai gradualmente se reconfigurando.

    Yuri Silva Portela
    Yuri Silva Portela

    Conforme expõe Yuri Silva Portela, a forma como o idoso negocia essas transições de papel tem impacto direto sobre sua saúde psicológica. Aqueles que conseguem ressignificar os novos papéis, encontrando neles valor e pertencimento, tendem a apresentar maior resiliência, melhor resposta imunológica e maior adesão a tratamentos. Por outro lado, idosos que vivenciam essas mudanças como perdas irreparáveis e definitivas apresentam maior vulnerabilidade a transtornos depressivos e ansiosos.

    Pertencimento, legado e o sentido de continuar

    A teoria psicossocial do desenvolvimento descreve a fase final da vida como marcada pelo conflito entre integridade e desespero. Idosos que conseguem olhar para trás e reconhecer valor em sua trajetória tendem a desenvolver um senso de integridade que sustenta o bem-estar na velhice. Já aqueles que não conseguem encontrar esse fio condutor entre passado e presente ficam mais suscetíveis ao desespero existencial.

    Na concepção do doutor Yuri Silva Portela, práticas clínicas e sociais que estimulam a narrativa autobiográfica, o compartilhamento de experiências intergeracionais e o envolvimento em projetos comunitários funcionam como intervenções legítimas de saúde mental, capazes de fortalecer o senso de legado e pertencimento que sustenta a identidade na velhice. O voluntariado, a transmissão de saberes e a participação em grupos sociais são, sob essa perspectiva, ferramentas terapêuticas.

    Identidade, autocuidado e adesão ao tratamento

    Há uma relação direta, embora raramente discutida, entre identidade e adesão ao autocuidado. O idoso que mantém um senso coerente de quem é e de que ainda tem projetos e relações significativas tende a valorizar mais sua saúde e a seguir com maior consistência as orientações médicas. Inversamente, aquele que perdeu o sentido de sua própria trajetória frequentemente abandona medicamentos, deixa de comparecer a consultas e negligencia hábitos básicos de saúde. 

    Yuri Silva Portela conclui que reconhecer e fortalecer a identidade do paciente idoso é, portanto, parte constitutiva de qualquer estratégia clínica que pretenda ser eficaz. Cuidar de quem a pessoa é, não apenas do corpo que ela habita, essa é a fronteira que a geriatria contemporânea ainda está aprendendo a cruzar.

    Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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