Taiza Tosatt Eleoterio, especialista em saúde mental e relações familiares, percebe com frequência o quanto a culpa acompanha a experiência de muitas mães. O desejo de acertar é tão grande que qualquer dificuldade do filho passa a ser lida como falha pessoal. Esse peso, embora venha de um lugar de amor, pode acabar atrapalhando a capacidade de enxergar com clareza aquilo que a criança de fato está sentindo.
Quando a culpa toma a frente, a mãe tende a reagir ao próprio desconforto antes de compreender o da criança. O resultado é um cuidado que, sem querer, gira mais em torno de aliviar a angústia adulta do que de acolher o filho. Olhar para esse movimento com gentileza é um caminho importante para reequilibrar a relação.
A culpa como ruído na escuta
A culpa funciona como um ruído que distorce o que se ouve. Diante de um filho irritado ou triste, a mãe culpada pode interpretar tudo como uma acusação direcionada a ela. Em vez de perguntar o que houve, ela já se defende ou tenta consertar a situação rapidamente. A criança, por sua vez, fica sem espaço para expressar o que sente, porque a cena passa a ser sobre o sofrimento da mãe.
Taiza Tosatt Eleoterio observa que reconhecer esse padrão não tem nada a ver com julgar a mãe. Pelo contrário, trata-se de um convite ao alívio. Quando a mulher percebe que não precisa ser perfeita, ela ganha liberdade para escutar de verdade. A escuta sem culpa abre espaço para que o filho mostre o que realmente se passa com ele.
O peso das comparações e das cobranças
Boa parte da culpa materna nasce de comparações. Modelos idealizados de maternidade, somados às cobranças que circulam socialmente, criam a sensação de que sempre há algo a mais a fazer. A mãe que não dá conta de corresponder a esse ideal tende a se sentir em dívida, mesmo quando está se dedicando muito. Esse cansaço emocional afeta a forma como ela lida com as demandas do filho.
A leitura psicanalítica ajuda a separar o que é responsabilidade real do que é cobrança excessiva. Nenhuma mãe controla todas as variáveis da vida de uma criança, e reconhecer esse limite é libertador. Ao soltar um pouco do peso, a mãe consegue se aproximar do filho a partir do vínculo, e não da obrigação de provar que está fazendo tudo certo.
Acolher a si mesma também é cuidar do filho
Existe uma ideia bastante difundida de que a mãe deve se colocar sempre em último lugar. Na prática, porém, uma mulher esgotada e tomada pela culpa tem menos recursos internos para sustentar a relação com a criança. Cuidar de si não é egoísmo, e sim uma condição para oferecer presença de qualidade. O filho percebe a diferença entre uma mãe disponível e uma mãe sobrecarregada.
Taiza Tosatt Eleoterio costuma ressaltar que o autocuidado materno tem efeito direto no clima familiar. Quando a mãe se permite errar, pedir ajuda e descansar, ela transmite ao filho que sentimentos difíceis podem ser acolhidos. Esse exemplo ensina mais do que muitas palavras, porque mostra na prática que ninguém precisa carregar tudo sozinho.
Transformar a culpa em compreensão
A culpa, quando observada de perto, pode se transformar em algo mais útil. Em vez de paralisar, ela pode servir como um sinal de que a mãe se importa e está disposta a olhar para a relação. O caminho está em deslocar o foco da falha para a compreensão, perguntando o que o filho precisa em vez de o que a mãe deixou de fazer.
Taiza Tosatt Eleoterio pondera que esse deslocamento costuma ser mais fácil com apoio. Um espaço de escuta, seja em rede de apoio, seja em acompanhamento profissional, ajuda a mãe a elaborar a própria culpa e a recuperar a confiança em si. À medida que o peso diminui, fica mais claro enxergar o que o filho sente, e a relação ganha leveza para se reconstruir dia após dia.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
